- Ano II - nº 3(15) - Março de 2008.                                                                     Direção: Osiris Costeira

CONSTELAÇÕES FAMILIARES - Gal (Maria da Graça) Sant´Anna.

Bert Hellinger e as constelações familiares.

À minha frente, um homem alto, claro, alemão, que tinha sete anos quando Hitler assumiu o poder na Alemanha, por um tempo dominada pelo nazismo. Bert Hellinger completa, em 2008, 83 anos, e certamente precisou superar muitos preconceitos pós guerra.

Conheci-o pessoalmente, agora há pouco, em setembro de 2007, ficando em mim a impressão de que estivera diante de um menino. Movimenta-se com agilidade, passividade, amorosidade, e com um especial sentido de compaixão, parecendo buscar nas suas atitudes terapêuticas um único propósito, o de descobrir, naturalmente, uma adequada e harmoniosa sintonia amorosa com o seu cliente e com o meio ao qual é imprescindível que ele se reconheça pertencendo, fazendo parte.

De fato, é esta a tônica principal de todo o seu trabalho, incluir, naturalmente, em perfeita sintonia, sem qualquer exclusão e sempre de acordo com as originais leis do AMOR INCONDICIONAL, tudo o que permeia o universo cósmico e a alma humana, e que, de alguma forma, se influenciam de maneira sistêmica.

Muito jovem, Bert Hellinger se viu recrutado para as fileiras do exército de Hitller, contrariando uma vontade sua primordial, que aos dez anos já lhe era muito clara, a de ser padre. Nesse sentido, apoiado pelos pais, aos seus dez anos, ficou por cinco anos interno com os missionários Mariannhill. que lhe abriram definitivamente os horizontes culturais, alem de solidificarem sua formação básica e a sua própria intenção.

Com o fechamento do internato, voltou para casa e, entre os 15 e 16 anos, tendo como vizinho o futuro Ministro das Famílias do Governo Adenauer, teve a oportunidade de freqüentar um ambiente que muito o enriqueceu com uma visão ampla e aberta para o mundo, desenvolvendo gosto pelos debates que presenciou entre pessoas do mais alto nível cultural e espiritual.

Os padres jesuítas freqüentavam aquele ambiente, e deles Bert parece ter assimilado o sentido de autonomia, liberdade de espírito e reais possibilidades de desenvolvimento, chegando a pensar em se tornar um deles .Viu-se, entretanto, desestimulado desta idéia por não se reconhecer - como ainda não se reconhece - um professor, atividade que percebeu muito própria daquela congregação. Ainda assim, mais tarde, se viu rendido quando por um bom tempo tornou-se professor na África do Sul, reconhecendo que muitas vezes realizamos muitas coisas das quais, inicialmente, nos distanciamos.

Aos 17 anos, recebeu o seu certificado de ginásio e nível secundário, oferecido aos que como ele já haviam sido recrutados e, portanto, já serviam ao exército. Esse certificado, contudo, precisava estar acompanhado de mais um documento exigido naquele tempo, referente à sua “prestação de serviços ao exército”, e, no de Bert, constava a observação de que ele se tratava de “elemento potencialmente nocivo ao povo”, por conta de uma “casual” e pequena entrevista de avaliação de um superior no exército, que interrogando-o obteve dele impressões de pensamentos contraditórios aos ideais nazistas.

Por esse motivo o seu diploma lhe foi negado naquele instante, mas recuperado a seguir por insistente defesa de sua mãe, sobre a qual ele declara ter sido sempre uma leoa quando se colocava em sua defesa.

Tendo vivenciado, ainda muito jovem, a Alemanha de Hitler, Bert reconhece ter recebido de seus pais a força para o seu afastamento dos ideais nazistas, e sua robusta resistência à força de sedução produzida em torno desses ideais, força não só pretendida mas que de fato naquela época se exercia.

De tudo isto, um enorme ganho: “Mantenho minha distância e prezo a minha liberdade. Com isso, movo-me num campo mais amplo”, declaração que faz no livro “Um lugar para os excluídos – Conversa sobre os caminhos de uma vida” em que reúne trechos da entrevista que concedeu a Gabriele Ten Hövel, editado no Brasil pela Editora Atman.

Bert Hellinger experimentou os rigores da guerra entre 17 e 20 anos, período em que foi recrutado pelo exército nazista, e que o condicionou hibernar a sua juventude. Essa experiência, aliada ao registro do pós guerra, lhe transmitiu um sentido especial sobre a vida. Vários de seu amigos perderam a vida, como um de seus irmãos. Cidades eram só ruínas, e o seu sentimento humano selou registros de uma forma absolutamente diferente, mas que o enriqueceram com uma força muito especial.

Em atividade militar, escapou do fuzilamento, sobrevivendo à guerra de forma surpreendente. Retornando da guerra, sempre decidido a se ordenar padre, entrou numa ordem religiosa ocupando-se imediatamente com a mística ocidental. Desta maneira, iniciou seus exercícios de espiritualidade desenvolvendo a percepção fenomenológica, e a capacidade de observar desvelada através do fenômeno, a essência, algo até então oculto, e que começava a observar além de qualquer curiosidade, com a renúncia a qualquer saber, de forma a se permitir que o que se desvelasse se apresentasse com a maior isenção possível de influências dos sentidos ou do espírito. Aquilo que apenas se apresenta porque assim é. O fenômeno observável aponta apenas o que é. Porque apenas é.

È possível que neste ponto, tenha aflorado suas primeiras percepções sobre o método das Constelações Familiares e do seu valor terapêutico alcançado a partir da observação do fenômeno, adotando-se necessariamente a atitude da sua total aceitação, com renúncia a todo o desejo e a toda vontade própria, onde então se possibilita observar-se exposta, à total realidade.

Esse comportamento, isento de julgamentos na observação dos fenômenos, foi se ampliando durante os 25 anos seguintes, enquanto se dedicava, como sacerdote, ao trabalho missionário entre os zulus na África do Sul, fundando escolas, compartilhando seus conhecimentos, tomando responsabilidades por paróquias e experimentando uma aproximação pessoal com os membros das paróquias e suas famílias.

Com eles aprendeu o respeito que os nativos daquele país demonstravam por seus pais , a impressionante segurança com a qual as mães lidavam com seus filhos e o natural respeito diante do próximo. Ainda na África do Sul, se surpreendeu com a forma como se tomavam as decisões em assembléias, e foi lá, em 1964, que começou a se familiarizar com o trabalho de dinâmica de grupo que muito contribuiria para o seu desenvolvimento e para tudo que viria a desenvolver mais tarde.

Ainda naquela época, se interessou e se dedicou à Teologia. Retornando à Alemanha, aos 45 anos, iniciou sua formação em psicanálise ocupando-se também com outras formas de terapia, enquanto gradualmente desenvolvia a sua vida, acabando por desligar-se definitivamente da ordem religiosa, inclusive casando-se, posteriormente.

Ao longo de 55 anos dedicou o seu tempo à sua sobrevivência em tempos de guerra e, em seguida a contemplação, meditação, ensino e terapia, tendo como conseqüência adquirido um crescimento interno que contou especialmente com a grande contribuição atribuída ao seu convívio com os zulus nos tempos da África do Sul.

Depois desse tempo, de volta à Alemanha, e já casado, continuou com os trabalhos de dinâmica de grupo e psicanálise. Associou-se então a um grupo de psicologia profunda até o final dos anos 60, início dos anos 70, quando se viu excluído daquele grupo ao se manifestar fascinado pela terapia primal.

A partir desta época, individualmente, começou a enriquecer-se ainda mais com novas formas de terapia que emergiam, como análise transacional, Gestalt, hipnose Erikssoniana, PNL - Programação Neuro Lingüística - e Reich, que em 1968 já competia com a psicanálise. Decidiu-se, então, por uma formação em terapia primal e a análise do script que lhe favoreceu a percepção dos movimentos sistêmicos, tornando-se, para ele, um marco essencial para o seu olhar apontado para os envolvimentos familiares.

Destaca-se ainda no seu desenvolvimento o respeito maior ao cliente, o que aprendeu com Milton Erickson, adotando a imediata aceitação ao que possa estar se insinuando na leitura feita a partir dos seus sinais corporais, podendo perceber que muitas vezes, esses sinais apresentam a questão verdadeira, a que merece o cuidado, aquela que traz a essência e, portanto, uma possível solução, e que ao final se observa muito diferente da questão inicialmente apresentada.

Hoje em dia, referindo-se aos tempos em que estava recrutado declara: “Naquele tempo fui tomado a serviço, não sei porque forças. Fui utilizado para alguma coisa”, e parece estar de fato convencido de que um sistema age de alguma forma intrincada, sem que o indivíduo possa decidir. Nessas bases desenvolveu a Constelação Familiar, entendendo ser inútil qualquer adoção de valor, exigindo-se uma vigília permanente para desconsiderar qualquer julgamento, atuando sempre com absoluto e profundo respeito ao destino de cada um, entendendo que existem movimentos poderosos que arrebatam as pessoas e as carregam consigo.

No princípio dos anos 70, Bert Hellinger apresentou o seu método terapêutico com as Constelações Familiares desenvolvido a partir de toda a experiência vivenciada e, desde então, vem aprimorando-o de forma sempre dinâmica. Este método tem sido reconhecido como recurso terapêutico capaz de desvelar e abordar a questão essencial que interfere na saúde física, mental, emocional ou ainda espiritual do ser humano. Com um conjunto de conhecimentos, percepções e um profundo e absoluto respeito ao destino de cada um, tem sido aplicado e divulgado como um novo recurso capaz de apontar a essência de tudo o que clama por ser desvelado, e promover transformações adequadas da forma mais harmoniosa possível.

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