- Ano VIII - nº 2 (66) - Fevereiro /Março / Abril de 2014.                           Direção: Osiris Costeira

CONVERSAS AO REDOR DO FOGO - Osiris Costeira - osiris.costeira@uol.com.br

OTITE - Nº2, Opus 4, em Sol Maior

I - O verdadeiro aparelho auditivo de Beethoven

 

Quando nós, médicos e amantes da música clássica, discutimos patologias do aparelho auditivo, notadamente aquelas que podem levar à surdez, é inevitável a lembrança de BEETHOVEN, tal é a força de sua vida artística em que dois aspectos aparentemente antagônicos delimitam a sua imagem: surdez e genialidade musical.

É difícil para qualquer um imaginar um som sem ouvi-lo. Muito mais difícil é imaginar uma sucessão de sons harmônicos e ritmados na construção de uma melodia. De uma música. Uma sinfonia, assim criada, é inimaginável para qualquer um de nós, simples mortais. Normais.

Beethoven, apesar de mortal fisicamente era, sem dúvida alguma, ungido pela genialidade, espontânea e natural, de sua essência, imortal, e prova insofismável da existência, da presença e da força de Deus, qualquer nome que se lhe queira dar.

Em meados de 1810, quando a surdez aumentou, Beethoven não pôde mais executar suas obras. Os visitantes de sua casa descobriram que seus pianos tinham as cordas arrebentadas por causa de suas frequentes batidas, no desespero de tentar ouvir o que tocava.

Beethoven retirou as pernas do piano para poder sentar-se no chão e sentir as vibrações. Apesar disso, até o fim, ele iria improvisar durante horas, embora não  ouvisse nenhuma das notas que estava tocando. Ele ainda precisava do instrumento. A improvisação no teclado estava ligada a sua inspiração.

E este é um dos segredos que explica como Beethoven conseguia compor completamente surdo. Enquanto tocava seus pianos, tremendamente desafinados e sem várias cordas, ele ouvia através de seus dedos. Essa ligação, dedos-alma-Deus, era o verdadeiro aparelho auditivo de Beethoven.

Embora não se conheça com absoluta certeza a data de nascimento de LUDWIG van BEETHOVEN, sabe-se, no entanto, que foi batizado em 17 de Dezembro de 1770, pelo que presumivelmente deve ter nascido no dia anterior ou talvez no mesmo dia.  O acontecimento teve lugar na cidade alemã de Bonn, na qual esta família de origem belga se tinha instalado.

De fato, o avô do recém-nascido, chamado Ludwig como ele próprio, nascera em Mechelen, na Bélgica, em 1712, e era de origem humilde, apesar daquilo que parece indicar a partícula "van" que acompanha o nome e costuma iniciar uma origem nobre.

Ludwig possuía uma voz bonita e foi um músico notável, por isso teve a oportunidade de trabalhar nas capelas de Mechelen, Lovaine e Liège. Em 1733 foi contratado como baixo na corte do príncipe-eleitor de Colônia, que desde 1628 tinha a sua sede em Bonn.

Depois de seu casamento com Maria Josepha Poll, naquele 1733, de todos os filhos do casal apenas um sobreviveu, Johann, que também trabalhou para o eleitor de Colônia e, depois, deu aulas de piano, violino e canto,

Em 1767, Johann casou-se com Maria Magdalena Kaverich, filha de um ajudante de cozinha do Palácio de Verão de Ehrenbreitstein, que tinha enviuvado aos dezoito anos.

O casal teve um filho em 1769, ao qual deram o nome de Ludwig Maria, que não chegou a viver mais do que uma semana. O segundo rapaz dos Beethoven também foi batizado com o nome de Ludwig, na já citada data de 17 de Dezembro de 1770.

Assim, o futuro compositor foi o primogênito entre os seus cinco irmãos mais novos, dos quais apenas dois sobreviveram: Caspar Anton Carl, nascido em 8 de Abril de 1774, e Nikolaus Johann, nascido em 2 de Outubro de 1776.   

Para uma avaliação global da obra genial de Beethoven, seus historiadores costumam dividi-la  em Períodos Musicais, em que  aspectos de sua vida pessoal e influências de outras pessoas determinaram as características de sua produção musical.

Convencionalmente, o primeiro período da obra de Beethoven termina por volta da mudança de século, quando Beethoven tinha 30 anos e, portanto, iniciava a sua maturidade vital e musical.

Nas obras compostas durante este período, pode-se apreciar a influência de Haydn, considerando-se, porém, que nelas está refletida certa audácia, da qual o grande Mestre carecia. A esse grupo correspondem a Primeira e Segunda Sinfonias e os Concertos para Piano nº1 e nº2.

A partir de 1800, ou mais precisamente de 1802 - data em que se manifestaram os primeiros sintomas de sua surdez e, como consequência, a crise que reflete o "Testamento de Heiligentadt" - encontramos um músico que amadurece rapidamente, que já não se conforma com as audácias formais e experimenta novas formas, buscando uma linguagem subjetiva que vai além do mero virtuosismo, a qual lhe permite superar as limitações expressivas e manifestar, através dos sons, as perturbações do espírito.

Esse segundo período foi o mais prolífico e compreende da Terceira Sinfonia à Oitava, os Concertos para Piano nº3 ao nº5, um Concerto para Violino, e o Concerto para Violino, Violoncelo e Piano, além de diversas Sonatas, Músicas de Câmara, Quartetos e sua única ópera, Fidelio (1805).

O terceiro e último período começa por volta de 1814, quando Beethoven estava completamente surdo. Seu distanciamento do mundo exterior, somando-se à impossibilidade de ouvir a sua própria música, marcam uma clara diferença com relação a toda a sua produção anterior.

Esse período compreende a Missa Solene (1819-1823), suas últimas Sonatas e Quartetos, a Variações sobre uma Valsa de Diabelli e a sua obra mais importante, ao mesmo tempo apogeu, síntese de sua genialidade e testamento vocal: a Nona Sinfonia (1822-1824).

A inigualável Nona Sinfonia, em que orquestra e coro inovam a composição sinfônica, origina-se, vinte anos antes, em 1792, quando o jovem Beethoven demonstrou interesse por um poema de Friedrich Schiller, intitulado "Ode à Alegria" que pregava a fraternidade entre os Homens.

Além disso, alguns dos fragmentos musicais dos três primeiros movimentos, puramente instrumentais, já haviam sido esboçados por Beethoven a partir de 1812 para uma futura composição sinfônica.

Em sua elaboração definitiva, a genialidade de Beethoven coloca, no extenso quarto movimento, o CORO, precedido por uma frase do tenor, com a finalidade de manifestar um grande abraço a toda a Humanidade.

Esta representação acabou comovendo intensamente o público presente no Teatro da Porta Corintia, em 7 de Maio de 1824, em Viena. E esta apoteose final deixou indiferente um Beethoven completamente surdo que, apesar de dirigir o concerto, ao seu final folheou distraído as últimas páginas da partitura.

Deve ter sido um dos membros do coral que, com um sinal, alertou o maestro, tirando-o de seu silêncio para indicar-lhe um público que aplaudia completamente rendido à sua genialidade.

 

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