- Ano V - nº 5 (45) - Abril de 2011.                                                                Direção: Osiris Costeira

CONVERSAS AO REDOR DO FOGO - Osiris Costeira - osiris.costeira@uol.com.br

LIBERTAÇÃO FEMININA. II - Homo Sapiens: Macho X Fêmea

 

Os animais de sexualidade diferenciada sempre andam aos pares, talvez por próprio instinto natural de sobrevivência da espécie ao visar sua perpetuação. E o Homem não fugia à regra. Macho e fêmea erravam sempre juntos, ora em busca de refúgio, ora em busca de alimento.

Essa fêmea, a mulher, tinha uma particularidade bem diferente das demais e que a tornava bem peculiar: não apresentava o fenômeno do cio para o acasalamento e procriação e, mensalmente, de modo cíclico e constante, sangrava por sua genitália, o que a debilitava e a enfraquecia à luta. A aptidão da mulher em procriar em qualquer período - e não em um, determinado pelo cio - acrescido ao aspecto menstrual, a colocou em posição de grande dependência do macho no que concerne à sua defesa física e à busca do alimento.

A contextura muscular feminina mais modesta do que a do homem, pois nela se insere um acentuado panículo adiposo que, entre outras coisas, favorecerá a gestação, longa e quase incapacitante pelo menos em seu final; o período de aleitamento que lhe é imposto por ser animal mamífero; os constantes estados de enfraquecimento oriundos dos períodos menstruais de anemia colocaram, desde o início, simplesmente sob o aspecto anátomofisiológico, a mulher numa posição de inferioridade constante e imutável perante o macho.

Este, sem esses encargos e inconvenientes, passou a liderar, de fato e de direito, o casal e suas crias, pois dele dependiam as necessidades básicas de sobrevivência: defesa e alimento. Torna-se, assim, chefe absoluto. Ser supremo entre os animais e na própria espécie.

Mas o homem se defrontava quase sempre com um sério adversário que, apesar de sua supremacia entre os animais, lhe era superior. Mais poderoso do que ele. Seu tacape rústico e sua valentia selvagem se rendiam, avassalados, ao grande adversário. Tão poderoso ele era que tinha a capacidade de “fabricar” raios e trovões, tempestades e vendavais. E ele a tudo se mostrava impotente. E fugia amedrontado ante sua supremacia.

Nunca o via, desconhecia sua forma ou estrutura. Sabia apenas de seu poderio. Deu-lhe um nome - DEUS - e o imaginou a sua semelhança. Sim, só outro homem, outro “macho”, seria susceptível de tal poder, sendo ridículo imaginar o seu poderoso adversário, imbatível adversário, à feitura de sua fêmea que a seu lado carecia de proteção e alimento. E nasce a imagem de deus - figura criada - como “verdadeiro” Ser Todo Poderoso. Onipotente. 

À imagem desse deus “enfurecível e genioso” floresceram os pilares, as colunas-mestra da Liturgia Mística, onde não faltava o sacrifício de animais, como alimento, ou o das próprias fêmeas - de preferência as que ainda não haviam concebido, as virgens - para que elas tivessem com o Grande Senhor filhos também poderosos, além de satisfazer os presumíveis desejos instintivo-sexuais do invencível  adversário. Antropomorfisado.

Pela necessidade básica do alimento o Homem é nômade e vive atrás de boa caça para saciar a sua fome. Quando a consegue, come o que lhe parece suficiente e, quando não mais quer deixa que a fêmea - que não fez nenhum esforço para consegui-la - coma também. Ela se submete e aceita. Sem ele, o macho, sua sobrevivência seria muito difícil.

Da mesma forma, ao se refugiarem das grandes intempéries, em grutas e cavernas, levava ele consigo uma provisão maior de alimento à espera da bonança, cabendo à mulher o que lhe restasse da vontade satisfeita.

O aspecto alimento-caça representava, para o homem, a posse de algo conquistado à luta, com esforço e risco seu. Passava. a  lhe ser próprio e ao qual dava o destino que entendesse. Era dele. De sua propriedade.

Possivelmente, nasceu desse fato rotineiro da vida do Homem primitivo, a primeira noção, ainda selvagem e impura, de propriedade. E propriedade privada, da “coisa minha e de mais ninguém”.

O Homem daria um grande passo em sua “humanização” com a descoberta da Agricultura. O cultivo da terra, tirando dela o seu alimento, lhe poupou o esforço da luta pela caça, além de seus constantes deslocamentos à procura de alimento. Pôde, desse modo, se fixar a uma determinada região em que tinha o seu plantio, tornando, de certa forma, sua vida mais cômoda.

Do mesmo modo como imaginamos a sensação de propriedade privada - alimento da caça do homem primitivo, e a terra que agora cultivava - do plantio à colheita era obra sua, e lhe pertencia também, bem como o fruto de sua fertilidade, pois representava alimento e sobrevivência. Igual à caça.  

E, se bem que com mais possibilidade do que quando era nômade, a mulher ainda não tinha uma atuação importante no fomento de sua agricultura, pertencendo ao homem, exclusivamente, a magia de plantar e depois colher.

Com o progredir das rudimentares técnicas de plantio e a consequente entronização absoluta e irreversível da Agricultura à vida do Homem, fixou-se ele, definitivamente, à região cultivada, consubstanciando de modo mais nítido e claro a noção de família, de grupo, de clã.

E isto porque toma corpo uma figura, ao se lhe outorgar uma importância especial, que até então era secundarizada pelo próprio Homem. É a consequência da necessidade de se continuar na posse das terras cultivadas que o filho - filho varão, lógico - herdeiro direto e sucessório, adquire uma grande importância na família constituída, ao se tornar o continuador da posse das terras cultivadas, perpetuando, desse modo, a propriedade para o grupo.

Consequentemente, a herança “hereditária” passa a ter reconhecimento de direito e de fato por todos, se tornando um princípio básico na organização das estruturas dos primeiros “Estados” naquele período da civilização humana. Princípio básico este que perdura, ainda hoje, na organização política de alguns Estados e na codificação do Direito Civil da grande maioria dos povos atuais

Da mesma forma que a terra e seus frutos pertenciam ao seu dono, a fêmea e suas crias pertenciam ao seu líder que lhes dava proteção: o macho. Principalmente agora que o filho era esperado ansiosamente para assumir, mais tarde, o plantio e a propriedade.

Sai, assim, a mulher da condição de “ser inferior”, dependente, e até certo ponto empecilho às lutas do homem, de “objeto possuído”, de coisa, de algo que alguém lhe tem a posse, e a cujo possuidor lhe deve obediência. E filhos. Mas que sejam varões!

Transformava-se a fêmea em um mero saco de óvulos, de propriedade masculina, com a obrigação de gestá-los e os parir para que o clã aumentasse, tornasse-se poderoso e perpetuasse a posse das terras aos descendentes diretos. Nascem, dessa necessidade, a Propriedade Familiar de sucessão hereditária, e o esboço - desenvolvido mais tarde, principalmente em Roma - do Pater Familiae, avoengo do Senhor Feudal da Idade Média e dos “coronéis” atuais do interior rural brasileiro.

Da nova codificação de direitos e deveres da “família”, agora assim constituída, condicionava-se à mulher uma conduta maquinal onde ela, como um aparelho reprodutor, daria filhos e gozo sexual ao seu homem - amo e senhor – consubstanciando-se, desse modo, o caráter essencialmente sexuado de sua existência. De fêmea.

CONTATO

fale conosco, tire suas dúvidas, fale com os terapeutas, opine sobre os artigos e dê sua sugestão de conteúdo.

BIBLIOTECA/LINKOTECA SELECIONADA

Nosso objetivo é formar um banco de referências bibliográficas das diferentes Terapias Holísticas, para consulta de todos os interessados em mais detalhes sobre determinado assunto. Seria muito importante, e verdadeiramente interativo, se recebessemos sugestões , objetivando uma das finalidades do site Terapia de Caminhos que é compartilhar experiências e conhecimento. Clique aqui para acessar a terapia que deseja uma bibliografia selecionada para consultas.

"As opiniões emitidas nos textos do site são de exclusiva responsabilidade de seus autores".