- Ano VI - nº 3 (54) - Março/Abril de 2012.                                                                Direção: Osiris Costeira

CONVERSAS AO REDOR DO FOGO - Osiris Costeira - osiris.costeira@uol.com.br

AS DORES

I - As Dores Sonhadas

 

A DOR, esta experiência humana universal que acompanha o Homem desde que ele ainda não era nem “sapiens”, absolutamente irreverente e imprevisível quanto ao tempo e ao local de chegada, nem sempre representou, apenas, uma sensação física desagradável, e da qual nos defendemos instintivamente.

Talvez, nenhuma outra experiência esteja tão embutida de simbolismos e significados quanto a dor. A idéia de que dor é, simplesmente, o resultado de uma condição física interna é relativamente recente. Para muitos filósofos e culturas a dor teria origem externa, tal como a “vontade de Deus”, ou do deus.

Esta concepção de origem externa da dor possibilitou uma série de interpretações simbólicas dos contextos social, ético e moral de cada época e de seus povos. A própria história bíblica, no Gênesis, descreve a introdução da dor e do sofrimento na experiência humana como “punição divina para a transgressão”, e sua ascendência judaico-cristã foi transmitida pelo Ocidente como um dogma, com a chancela e o sinete da própria divindade.    

A mulher, ao comer do fruto proibido no Jardim do Édem, desobedecendo às ordens de Deus, cometeu um grande erro, tão grande que além da perdição condicionou-a, também, ao homem. Tal crime, de dolosa traição ao próprio Deus, clamava por condenação. E é o próprio Deus, juiz e carrasco, quem sentencia através dos versículos 16, 17,18 e 19, do Capítulo 3 (Gênesis):

“(16) E à mulher disse: multiplicarei grandemente tua dor e a tua conceição; com dor terás filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará!”.  

A mitologia grega, “mãe de todas as histórias do céu e da terra”, não escapou de fazer da dor o instrumento predileto de castigo, principalmente quando para punir as transgressões ao Pai, isto é, a Zeus.

E, dessa vingança dolorosa nem Prometeu, o grande Titã, filho de Jápeto e Climene, escapou: ao roubar o fogo aos deuses, para doar aos Homens, foi acorrentado por Zeus no cimo do Cáucaso, enquanto uma águia comia-lhe o fígado – dolosa e dolorosamente. Contudo, o fígado imediatamente tornava a crescer, até que Hércules o libertou do suplício.     

Para toda a história literária, as representações e simbolismos da dor foram baseados em doutrinas de punição, como no Inferno, na Divina Comédia, de Dante Alighieri, em que a monstruosa figura de Lúcifer atormenta na dor e no sofrimento três homens que traíram os seus senhores: Cassius, Bructus e Judas.

E no Paraíso Perdido, em que Milton, o grande poeta do século XVII, descreve a “lastimosa sombra” do Inferno, saboreando a agonia de dor dos anjos caídos, depois de sua violenta subordinação.

Dante e Milton enfatizam, talvez quase sub-repticiamente, que a dor é permanente porque é necessário diferençar a dor punitiva da purificação moral, que está associada à dor transitória.

Da mesma forma, o sacrifício de Jesus no Calvário, a fome ascética de Sidarta Gautama, o Buda, e as seitas religiosas que pregam o autoflagelo nos dias santos manifestam o uso da dor para purificação, perdoando as transgressões através de ablações dolorosas. Temporárias, mas com dor.

As personalidades românticas, em que muitas vezes o romantismo está representado mais pela busca do amor do que, propriamente, pela sua posse e usufruto, têm também na dor - dor de amor - um componente extremamente rico de manifestações sensoriais, como tempero do amor, esse geralmente inacessível. E essas manifestações, muitas vezes materializadas em arte, e arte de excelente gabarito, evidenciam aspectos da eterna dualidade inconsciente de DOR e PRAZER, na tentativa de equilibrar um ego, nem sempre amadurecido ou estruturado.

Mas, mesmo nas manifestações românticas em que se canta o amor, há muitas vezes a materialização da dor como punição, quer pelo amor inatingível ou pecaminoso, ou ainda o próprio ciúme de amor em forma de dor que reflete, no mínimo, uma insegurança, consciente ou inconsciente, no contexto do amor vivido. E sofrido. E com dor.

Lembramo-nos que ciúme, poesia, arte e arte em tom maior são sinônimos de Antônio Botto, o príncipe dos poetas portugueses que, em suas “Canções”, dizia:

                              Bendito sejas,

                              Meu verdadeiro conforto

                              E meu verdadeiro amigo!

 

                              Quando a sombra, quando a noite

                              Dos altos céus vem descendo,

                              A minha dor,

                              Estremecendo acorda...

 

                              A minha dor é um leão

                              Que lentamente mordendo

                              Me devora o coração.

  

                              Canto e choro amargamente;

                              Mas, a dor, indiferente,

                              Continua...

 

                              Então,

                              Febril, quase louco,

                              Corro a ti, vinho louvado!

 

                              E a minha dor adormece

                              E o leão é sossegado.

 

                              Quanto mais bebo mais dorme:

                              Vinho adorado

                              O teu poder é enorme!

 

                              E eu vos digo, almas em chagas,

                              Ó almas tristes sangrando:

                              Andarei sempre

                              Em constante bebedeira!

 

                              Grande vida!

                              - Ter o vinho por amante

                              E a morte por companheira.

  

Mas, afinal, o que é a dor?

Será uma sensação física, reflexa, tipo nervo aferente/eferente, com decodificadores para reconhecê-la, identificá-la e sinalizar um determinado perigo vital, físico, corpóreo, palpável, às vezes urgente e inadiável?

Será uma forma de punição/purificação para que, sem vias nervosas, mas com decodificadores especiais – divinos e “deusificados” – consigamos evoluir e atingir as benesses de um “paraíso” em que o sofrimento (a dor) é um dos bilhetes de entrada?

Ou, ainda, a dor será, tão-somente, uma das manifestações de dor e prazer, meras sensações corpóreas que, inconscientemente, lutam para estruturar o ego, razão de ser da existência humana?

 

 

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