- Ano VIII - nº 3 (67) - Maio /Junho de 2014.                           Direção: Osiris Costeira

CONVERSAS AO REDOR DO FOGO - Osiris Costeira - osiris.costeira@uol.com.br

OTITE - Nº2, Opus 4, em Sol Maior

II - A Surdez de um Gênio da Música

 

Uma característica que diferencia Beethoven de seus antecessores - o que tem muito a ver com o conceito de gênio, cuja arte está acima de tudo - é a necessidade imperiosa de documentação. São centenas de cartas que escreveu e inúmeras anotações, material através do qual o compositor tentava explicar-se aos demais.

É precisamente esta abundante correspondência que permitirá à posteridade apreciar a grandeza do grande músico junto à Humanidade, e com todas as suas debilidades próprias do Homem. Apesar de gênio.

Um dos documentos mais impressionantes vem a ser uma carta que escreveu a seus irmãos e que nunca chegou a enviar, mas que guardou cuidadosamente, e se conhece  com o nome de "Testamento de Heiligenstadt" por ser esta a localidade onde Beethoven se encontrava quando a escreveu em 1802.

Foram momentos nos quais o compositor estava imerso numa profunda crise espiritual, em parte motivada pela certeza de que iria perder a audição e, talvez, também devido à rejeição de Giulietta Guicciardi, a quem, segundo algumas pessoas próximas aos dois, Beethoven havia proposto casamento.

Durante vários anos logrou dissimular a crescente perda da audição adquirindo uma imerecida fama de distraído. Somente os amigos mais íntimos conheciam o seu problema, tal como reflete uma carta enviada a seu amigo Wegeler, em 1801: "Faz três anos que minha audição está debilitada e por isso levo uma vida infeliz. Evito o contato com a sociedade [...]. Se tivesse qualquer outro ofício seria possível, mas com o meu a situação é terrível. O que diriam meus amigos?"

Os sentimentos de Beethoven eram, portanto, ambíguos: existia a real ameaça de não poder terminar a missão à qual considerava-se predestinado, fato que por um lado o impulsionava a trabalhar com maior afinco, e que, ao mesmo tempo, lhe produzia um profundo desassossego do qual não podia se separar.

As quatro páginas do "Testamento de Heiligenstadt" demonstram o terrível sofrimento que o atormentava, ante o destino que o aguardava e que, apesar de não afetar seu lado criativo, se apresentava como uma desgraça:

"Tudo isso levou-me ao auge do desespero e pouco faltou para tirar-me a vida [...], me parecia impossível abandonar o mundo antes de realizar tudo o que me está predestinado e, por isso, continuo vivendo esta vida terrível."

E a carta termina com a dolorosa exclamação "Vem morte, quando queiras, porque eu estou preparado para receber-te".

O ilustre Professor Dr. Luiz Venere Decourt, um dos nomes mais ilustres da Medicina Brasileira, publicou na Internet - no excelente site da Universidade São Paulo - USP (www.incor.usp.br/conteudo-medico/deo) - artigo  absolutamente elucidativo sobre a surdez de Beethoven, e a sua angustia.

Para termos uma imagem mais nítida e esclarecedora do problema, vamos pinçar trechos importantes do que nos ensina  Mestre Decourt:

"A perda da audição deve ter se iniciado pouco antes dos trinta anos, ou seja, nas vizinhanças do término do século. E progrediu de forma inexorável, podendo admitir-se que antes dos 30 anos já apresentava dificuldade à conversação e nos períodos finais talvez nada conseguisse ouvir. Ela iniciou-se pela queda na percepção dos sons agudos, já evidente perante o som de flauta de um pastor. Foram consultados, sem resultado inúmeros médicos, inclusive o da corte, Dr. Standenheimer."

"A causa da infecção foi muito discutida, com a proposição, em geral inconsistente, do papel de vários agentes nocivos: esgotamento nervoso, abuso de bebidas alcoólicas, sífilis, infecção tuberculosa, febre tifóide. É evidente a inexistência de qualquer (e raro) processo mórbido familiar dado o estado normal dos irmãos. E também não aos traumas na adolescência pelo ambiente intranquilo no lar, fruto da personalidade paterna, homem desabusado, violento, alcoólatra."

"A opinião, hoje quase generalizada, é a de presença de otoesclerose. Os dados razoáveis de necropsia (Dr. Wagner, do Museu de Anatomia Patológica de Viena) são os de "otoesclerose, seguida de neurite do acústico e atrofia final." Este diagnóstico foi defendido entre nós pelo colega, especialista, Dr. Frederico de Paula P. Hartung, em  1945."

"Uma opinião curiosa e aparentemente expressiva, é a da presença da Moléstia de Paget. A suposição está fundamentada no aspecto morfológico-estrutural do corpo, e, pelo que parece, já data de mais de trinta anos (Nayken, JAMA,1971). É sabido que a hipoacusia por otoesclerose tem sido mesmo admitida como forma retardada da Moléstia de Paget (Nayken)."

"Recentemente, em reduzida menção de trabalho, fiquei ciente da hipótese de intoxicação pelo chumbo formulado por norte-americanos, após exame de fios de cabelo do artista. No desconhecimento da investigação original não posso opinar sobre o achado, mas, de qualquer forma, não creio no afastamento dos seguros dados discutidos."

A vida de Beethoven sempre foi conturbada pela dificuldade de relacionamento, principalmente com as dificuldades de audição e terminando co a surdez.

No outono de 1826, um Beethoven abatido aceitou o convite de seu irmão Johann para passar uma temporada na sua casa em Gneixendorf, perto de Krems e junto ao Danúbio.

Embora parecesse que as relações entre Beethoven e o irmão estivessem mais amenas, em 1 de Dezembro de 1826, após uma discussão entre ambos, o compositor decidiu regressar à Viena. A viagem foi precipitada e o trajeto realizado em uma carruagem descoberta durante um temporal.

Ao chegar em Viena, os médicos diagnosticaram-lhe uma pneumonia e, após poucos dias, seu estado se agravou. Em fins de Março, um dos médicos, com toda a franqueza, descreveu a Beethoven seu delicado estado, em um dos cadernos que ele utilizava para comunicar-se.

Serenamente, Beethoven leu a nota e pediu que chamassem um sacerdote. No dia 24 de Março recebeu os últimos sacramentos e, na madrugada do dia 26, enquanto o céu da capital austríaca estava coberto de nuvens negras, pressagiando a tormenta que cairia pouco depois. Beethoven exalou seu último suspiro.

O músico Anselm Huttenbrener, presente no momento da morte, o descreveu posteriormente em uma carta: "Beethoven abriu bem os olhos, levantou a mão direita com o punho fechado e, durante alguns segundos olhou fixamente o alto, com gesto ameaçador. Quando deixou cair a mão sobre a cama, cerrou parcialmente os olhos. Levantei, então, sua cabeça com minha mão direita e coloquei a esquerda sobre seu peito: havia deixado de respirar e seu coração parado de bater."

Os funerais foram celebrados na Igreja Paroquial de Alserstrasse. Junto à tumba onde repousaram seus restos mortais, no Cemitério de Währing, em Viena - posteriormente transladados, em 1888, ao Zentralfriedhof da capital austríaca junto aos de Frans Schubert - Heinrich Anschütz, ator do Hoftheater, pronunciou a oração fúnebre escrita pelo poeta Frans Grillparzer, que em alguns de seus fragmentos resume as pegadas que o compositor havia desenhado em sua obra musical, assim como o lugar que ocuparia na História da Música, e que seus próprios contemporâneos começavam a vislumbrar:

"Aquele que venha depois dele não continuará, deverá começar de novo, pois este precursor terminou a sua obra onde está o limite da arte."

Convidamos todos que leram esta história a ouvir uma obra musical genial, talvez a mais importantes das que o ser humano já criou: A Nona Sinfonia.

Só lamentamos que o gênio que a compôs - BEETHOVEN - nunca tenha tido a felicidade de a ouvir, nem um único acorde, pelo aparelho auditivos de nós mortais.

Ouviu, sim, através de seu próprio aparelho auditivo, peculiar aos gênios predestinados, como lembramos antes, composto de DEDOS-ALMA-DEUS.

 

 

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