- Ano IX - nº 2 (71) - Março / Abril / Maio de 2015.                            Direção: Osiris Costeira

CONVERSAS AO REDOR DO FOGO - Osiris Costeira - osiris.costeira@uol.com.br

A "DOENÇA" de TCHAIKOVSKY - 2º Parte

 

Em 1876, Nikolai Rubinstein apresenta o compositor à baronesa Nadyezhda von Meck, viúva de Karl-Georg-Otto von Meck, rico proprietário das duas primeiras ferrovias russas, que se sente profundamente atraída pela obra de Tchaikovsky.

Incialmente a baronesa o incumbe em algumas transcrições para violino e piano, mas em seguida se converte em mecenas de Tchaikovsky, sob a única condição de se comunicarem somente por carta. Essa correspondência durou quatorze anos, sem nunca terem se visto.

O mecenato da baronesa von Meck (A Sinfonia nº 4 em fá menor, opus 36, é dedicada à baronesa) possibilitava Tchaikovsky dedicar-se exclusivamente à composição. Assim, em 1878 deixa o Conservatório de Moscou.

Neste mesmo ano, de 1876, Tchaikovsky passa por uma grave crise de depressão e angústia motivada, principalmente, pela sua homossexualidade, sentimento este que ele não consegue conviver em função dos aspectos sociais e culturais de todos que o rodeiam.

Numa tentativa de se sentir mais aceito pelos amigos e pela própria sociedade em que vivia, e que "fingia" não saber de suas preferências sexuais, resolve fazer algo absolutamente contra a sua vontade, mas, aos seus olhos, importante para acalmar a "vergonha" de alguns amigos. Para tanto, escreve uma carta para Modest, seu irmão e confidente, em que relata todo o seu plano desesperado:

"Agora estou passando por um período muito crítico em minha vida. Eu vou entrar em mais detalhes mais tarde, mas por agora vou simplesmente dizer-lhe: eu decidi me casar. É inevitável. Eu tenho que fazer isso não apenas para mim, mas por você, Modest, e por todos aqueles que amo. (...) Como é terrível pensar que aqueles que me amam possam, por vezes, sentir vergonha de mim. Em suma, eu procuro casamento ou algum tipo de envolvimento público com uma mulher, para calar a boca de várias criaturas desprezíveis cujas opiniões não significam nada para mim, mas que estão em posição de causar sofrimento aos que estão perto de mim."

Tchaikovsky casou-se com Antonina Milyukova, uma mulher de 28 anos, sua ex-aluna no Conservatório de Música de Moscou, na Igreja de São Jorge, em Moscou, em Julho de 1877.

Questões de dinheiro e uma incapacidade para compor agravaram a situação, e levou Tchaikovsky a níveis profundos de desespero. O casal viveu junto por apenas dois meses antes da crise emocional que o obrigou a deixar a cidade.

Pyotr viajou para Clarens, na Suíça para descanso e recuperação. Ele e Antonina permaneceram casados legalmente, mas nunca viveram juntos novamente e nem tiveram filhos, embora Antonina mais tarde tivesse dado à luz a três filhos por outro homem.

E em outra carta a seu querido irmão Modest, Tchaikovsky escreveu que ... "Somente agora, após meu casamento, começo a entender que nada é mais inútil do que não querer assumir como somos."

Assinatura de Tchaikovsky

 

E todo esse drama - a sua homossexualidade - a sua "doença", não entendida por ele próprio e execrada pelos seus contemporâneos e amigos, tem suas "origens", historicamente, nos primórdios da própria Humanidade.

O Pitecantropus, récem bipedestado, assume a liderança absoluta do clã, do "grupo familiar", ele, a fêmea e as crias, pois parte dele toda a provisão de alimentos, com a caça, e a defesa contra os demais animais, inclusive outros humanoides, que os atacam.

Sem ele, o macho, o clã não sobreviveria, principalmemte se observarmos que a sua musculatura é muito diferente  da fêmea que ostenta, em contrapartida, um panículo adiposo muito mais rico, em função de seus perídos menstruais - mensais e sem períodos de cio -  e, principalmete, durante a gestação de suas crias.

Além do mais, logo após o nascimento das crias, elas não se mostram independentes para à vida de imediato, dependendo dos cuidados, da alimentação e da defesa da "mãe zelosa" para a sua evolução. 

Com isso, ela, a fêmea, não participa da sustentação pela sobrevida, em termos de alimentação e defesa. Só o macho. Assim, desta maneira vista, a vida não sobreviveria sem a ação do "MACHO". Sem ele não haveria vida. E ponto final.

Desta maneira, assim visto e respeitado, o que dizer do homem, do "macho", que se mostre e se sinta mulher, "fêmea", desprezando os atributos e prerrogativas de seu sexo e, principalmente, de seu "comando"? Inadmissível...

Hoje, já iniciado o século XXI e com um cabedal de cultura imensamente maior do que o existente séculos atrás, ainda se discute a homossexualidade como uma "doença", uma manifestação patológica da conduta do indivíduo, passível de "tratamento", e, obviamente, quem sabe?, de "cura".

Sem dúvida que este aspecto "histórico", sociológico e antropológico, é uma maneira simplória e niilista de tentar entender a problemática emocional da homossexualidade, muito mais complexa do que poderia supor o próprio Pitecantropus.

Principalmente se nos lembrarmos que a Psicologia Profunda já sabe, hoje, que todos nós, homens ou mulheres, temos dentro de nós, vibrando constantemente, aspectos masculinos e femininos em que, por inúmeras razões, um deles se torna preponderante e nos condiciona e qualifica como homem ou mulher, em termos sócio-culturais.

Acompanhando, na grande maioria das vezes, a própria anatomia herdada geneticamente. Mas, nem sempre.

O outro, não dominante em nossa personalidade, não desaparece, e  continua a "existir" contrabalançando, se assim podemos conceituar, a preponderância do mais atuante. Para que haja equilíbrio, como em tudo na Vida e na Natureza.

Apesar de todo o drama de sua sexualidade mal entendida pelos outros e por ele próprio, Tachaikovsky teve uma riquíssima produção musical, praticamente em todos os setores da música clássica.

 

De sua criação constam música de câmara, seis sinfonias, aberturas-fantasia (Romeu e Julieta, 1870), balés ( O Lago dos Cisnes, 1876; A Bela Adormecida, 1890; O Quebra Nozes, 1892), três concertos para piano (Nº1, 1875), um concerto para violino (1877), e Variações sobre um tema, Rococó, para violoncelo e orquestra (1876), além de outras composições orquestrais, sempre magníficas e geniais.

 

Escreveu, também, dez óperas, entre as quais Eugene Oneguin (1879) e A Dama de Espadas (1890), as duas inspiradas em Puchkin.

 

Influenciado pela música ocidental, Tchaikovsky se situou quase sempre à margem do nacionalismo russo encarnado pelo Grupo dos Cinco. A orquestração brilhante, a melodia comunicativa e a intensidade dramática marcam toda a sua produção, popular em todo o mundo.

E o ano de 1893 ficou marcado ao receber, em junho, o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Cambridge, em 28 de outubro ao realizar a estreia de sua Sexta Sinfonia, a Patética, em São Petersburgo, e nove dias depois, em 6 de Novembro,  a sua morte aos 53 anos. Aparentemente, ao contrair cólera, da mesma forma que pai e mãe, ao ingerir agua contaminada em um bar, com amigos.

Vamos sentir um pouco da música deste gênio, através de dois concertos excepcionais: piano e orquestra e violino e orquestra:

 

 

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