- Ano XI - nº 2 (78) - Abril /Julho 2017.                            Direção: Osiris Costeira

CONVERSAS AO REDOR DO FOGO - Osiris Costeira - osiris.costeira@uol.com.br

OS SONHOS SONHADOS DORMINDO E ACORDADO - 2ª Parte

Enfim, Pasárgada à Vista

 

Mas, sejam os sonhos "sonhados" no sono iniciados aqui ou ali do encéfalo, permita-se ou não imaginar atividade igual nos animais, seja, inclusive, colorido, preto e branco ou variável, como cita Huxley, é outro tipo de sonho - o sonho sonhado acordado - que acompanha o Homem em todos os seus "mundos".

Constrói e os devasta com a mesma onipotência e onisciência de um pequeno deus; revive as vicissitudes  e frustrações emocionais da luta quotidiana pela sobrevivência.

Consegue o Homem, através de sua imaginação dirigida, a satisfação do Princípio do Prazer que tem as suas "fomes" como qualquer das demais necessidades humanas.

Há que se demarcar, entretanto, os limites desses sonhos acordados para não se ultrapassar os muros de uma realidade real e vivida.

Depois da imaginação, vivência em sonho, realizada a atuação profilática do equilíbrio emocional entre os Princípios do Prazer e do Desprazer, chega-se ao delírio, à alucinação, ao completo desligamento com o "mundo externo".

É como se alguém adquirisse um "bilhete" da Loteria Federal e não se contentasse em se supor um "reizinho" e se sentir milionário até o sorteio dos números da loteria.

Sorteado o número premiado, e não sendo o ganhador, o sonho sonhado acordado se religa à vigília total e, como num despertar matinal, parte para as atividades normais  do dia-a-dia.

Contudo, outros, mesmo após o sorteio e a constatação de que seu número não fora premiado, ainda persistem as elaborações e atitudes como se houvessem ganho o 1º prêmio, e já tivessem, inclusive, recebido o prêmio!

Um é sonho. O outro é delírio.

E desses sonhos, tão ao gosto dos "desgostosos da vida" e dos que não conseguem nunca aquele 1º prêmio, há um remédio fantástico, santo, miraculoso que aliviará os que sofrem dessas "doenças".

Quem o prescreve é Bandeira, Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho, o nosso poeta MANUEL BANDEIRA (1886/1968), ao incluir em seu livro "Libertinagem" (1930) um dos mais geniais poemas que a tristeza  humana, mesclada à técnica do ritmo e da linha melódica, poderia transmitir às gentes que a rodeia.

A receita de Bandeira prescreve uma viagem pra Pasárgada e convence a todos que ela representa o único passaporte existente e de aceite fácil em todas as Aduanas do mundo à viagem maravilhosa.

E isso, ao se admitir o poema como a medida exata dos desejos dos outros - sonhadores confessos ou não -  e poder, quase que, materializar-se em bandeira reivindicatória dos que se mantêm irremediavelmente sós neste mundo.

Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho

Descrição: Resultado de imagem para manuel bandeira

E é o próprio Bandeira que comenta, citado por inúmeros biógrafos e críticos de arte que ...."Vou-me embora pra Pasárgada” foi o poema de mais longa gestação em toda minha obra. Vi pela primeira vez esse nome de Pasárgada quando tinha os meus dezesseis anos e foi num autor grego. [...] Esse nome de Pasárgada, que significa “campo dos persas”, suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias [...]. Mais de vinte anos depois, quando eu morava só na minha casa da Rua do Curvelo, num momento de fundo desânimo, da mais aguda doença, saltou-me de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio: “Vou-me embora pra Pasárgada!”. Senti na redondilha a primeira célula de um poema [...].

Desta solidão germina a ansiedade e todas as "flores do mal" que acompanha o desamor de uma simples e fria existência. Não mais de uma vida, porque VIDA só em PASÁRGADA

 

 VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do Rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

 

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

 

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a Mãe-D'água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

 

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

 

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

- Lá sou amigo do Rei -

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

 

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