- Ano VIII - nº 1 (65) - Dezembro 2013 /Janeiro de 2014.                           Direção: Osiris Costeira

CONVERSAS AO REDOR DO FOGO - Osiris Costeira - osiris.costeira@uol.com.br

A Evolução da Mulher

V - A Mulher Idosa: Climatério com e sem Sintomas

 

No climatério com sintomas, o quadro clínico de manifestações mais precoces inclui fogachos, vagina seca, atrofia da pele e alterações de humor, como depressão e irritabilidade.

Sintomas como fogachos estão presentes em cerca de 50% das mulheres, sendo que em 82% delas os fogachos permanecem no mínimo por um ano, e em 26% por cinco anos ou mais. Clinicamente caracterizam-se por sensação de calor, com ou sem enrubescimento da face, seguida de sudorese, principalmente no tronco e na face.

Um fator de grande importância é a perda de sono associada a esses episódios. As ondas de calor noturnas associam-se a episódios de despertar, e isso pode gerar significativa privação do sono e, consequentemente, fadiga.

O período pós-menopausa caracteriza-se ainda por alterações do epitélio vaginal e uretral, acarretando vários sintomas. Com frequência, as pacientes apresentam dispareunia (dor durante o ato sexual), prurido vulvar e secura vaginal, bem como sintomas urinários como a disúria (dor à micção).

A pele também sofre notáveis alterações com o envelhecimento: há diminuição na espessura e perda da elasticidade, o que leva ao enrugamento. Além desses sintomas orgânicos, a menopausa pode acompanhar-se de sintomas psíquicos, como depressão, irritabilidade e alterações do humor.

Entre as alterações de evolução subclínica associada à menopausa, a osteoporose traz profundas implicações para a vida de mulher. Osteoporose é uma doença que se caracteriza por uma diminuição da massa óssea, por unidade de volume, e evidências clínicas de fragilidade óssea aumentada, podendo evoluir com fraturas.

Embora a perda gradual de massa óssea ocorra em ambos os sexos com o decorrer da idade, a deficiência de estrogênios, após a menopausa natural ou cirúrgica, é um importante fator que acelera a perda de massa óssea. Utilizando as técnicas de densitometria ou da tomografia computadorizada pode-se comprovar a existência de uma relação entre a idade e a densidade mineral óssea, a qual tende a diminuir mais rapidamente após a menopausa

Ao lado da osteoporose, a aterosclerose e a doença coronária alinham-se entre as complicações sérias da pós-menopausa. Está bem estabelecido que exista uma maior incidência de infarto do miocárdio e doença coronária em mulheres pós-menopausa.

Com base nas evidências atualmente disponíveis sabe-se que os estrogênios desempenham um papel protetor contra as doenças cardiovasculares. Uma das explicações para esse efeito protetor é a influência favorável dos estrogênios sobre o metabolismo.

Vários estudos têm demonstrado que os estrogênios melhoram o perfil lipídico, diminuindo os níveis dos fatores de risco, como o LDL-Colesterol, e aumentando os níveis dos fatores de proteção, como o HDL-Colesterol. Admite-se, ainda, um possível efeito benéfico direto dos estrogênios sobre os vasos.

A velhice é um sério problema em nossa cultura capitalista, visto que ela representa menos rentabilidade produtiva e mais custo de sobrevivência, com a manutenção da saúde que é cara. E, este aspecto, talvez seja mais intenso na mulher, pois a sociedade moderna dá grande valor à beleza da eterna juventude. Como se ela existisse!

A menopausa baliza uma verdadeira fronteira na mulher de nossa sociedade, sinalizando o término de uma fase produtiva, atuante, laborativa, e o ingresso no “horror” da velhice com suas características inexoráveis e irreversíveis. Contudo, não é sempre assim. Há outras realidades.

Michael T. Murray, em seu interessante livro “Menopausa: uma abordagem natural” (Editora Campus, Rio de Janeiro, 1998) nos lembra que  “ ... em muitas culturas a mulher espera pela menopausa, pois ela na verdade traz consigo maior respeito. O fato de se atingir uma idade mais avançada é visto como um sinal de benção divina e grande sabedoria. A visão cultural da menopausa está diretamente relacionada aos sintomas da menopausa. Se a visão da menopausa é amplamente negativa como nos Estados Unidos, os sintomas são bastante comuns. Ao contrário, se a menopausa é associada com pouca negatividade ou vista positivamente, os sintomas são muito menos frequentes.”    

Este comentário, a princípio e para todos nós habituados a um raciocínio linear de causa e efeito “embrulhado” como verdade insofismável, nos causa estranheza. E mais estranheza ainda sentimos ao tomar conhecimento de que estudos da mulher após a menopausa, em muitas culturas tradicionais, demonstram que a maioria passa por este período sem os sintomas comuns da mulher na menopausa em países desenvolvidos. Além disso, a osteoporose é extremamente rara, a despeito do fato de a média das mulheres em muitas sociedades tradicionais viver pelo menos trinta anos depois de atingir a menopausa.

Voltando a Michael Murray, ele questiona um aspecto fundamental que embaralha mais ainda o problema: “A pergunta que surge é: as mulheres das culturas tradicionais passam pelas mesmas mudanças hormonais que as mulheres de nações industrializadas? Surpreendentemente a reposta é sim. A pergunta seguinte: se as mulheres de culturas tradicionais passam pelas mesmas mudanças hormonais, por que não apresentam os sintomas da menopausa? A resposta: essas mulheres têm uma visão inteiramente diferente da menopausa.”

Mary C. Martin, do Departamento de Obstetrícia, Ginecologia e Ciências Reprodutivas da Universidade da Califórnia, São Francisco, USA, desenvolveu um trabalho de pesquisa extremamente interessante e rico em detalhes, ao evidenciar dados clínicos, laboratoriais, densitométricos e sócio-culturais de população de indígenas, descendentes maias, vivendo em áreas rurais do Yucatán, no México, sendo um grupo na pré-menopausa e outro na pós-menopausa (Martin, MC; Block, JE; Sanches, SL; et al – Menopause without symptoms: the endocrinology of menopause among rural Mayan Indian. Am J Obstet Gynecol,168:1839-45,1993).

De acordo com os resultados obtidos, nenhuma das mulheres na pós-menopausa (52 mulheres) sentiu fogachos ou qualquer outro sintoma da menopausa, bem como indícios de osteoporose. Os resultados ocorreram apesar do fato de os padrões hormonais das mulheres maias serem idênticos aos das mulheres americanas que se encontravam nesta mesma fase da vida.

Os autores desta interessante pesquisa atribuem a inexistência de sintomatologia menopáusica à atitude, em termos culturais, das mulheres maias em relação à menopausa. As mulheres maias valorizavam e ansiavam pela menopausa, pois traria aceitação e respeito como pessoas idosas, bem como o alívio de não terem mais que engravidar e parir, atitudes essas muito diferentes da rotina de vida nas sociedades industrializadas atuais.

Finalmente, Michael Murray termina o seu capítulo com um desafio: “O estilo de vida das mulheres americanas difere enormemente das mulheres maias. Os dois grupos consomem alimentos diferentes, têm níveis diferentes de atividade física e vivem em climas diferentes. Todos os fatores podem contribuir para a forma com que cada grupo vivencie a menopausa. Entretanto, esse estudo levanta uma questão interessante. Se nossa sociedade adotou uma visão diferente da menopausa, em que medida pode mudar tal experiência? Como a atitude social provavelmente não mudará em um futuro próximo, incentivo as leitoras a reverem suas concepções sobre si e sobre as mulheres idosas. Não caiam nos preconceitos e distorções de uma sociedade orientada para a juventude. Valorize-se e também aos que alcançaram as bênçãos e a sabedoria que chegam com a menopausa.”   

Fica lançado o desafio. Contudo, enquanto gerações são educadas para num futuro alcançar o aprimoramento cultural do respeito à velhice, podemos utilizar a tecnologia e a ciência de que já dispomos para amenizar as nossas deficiências, a espera de um dia podermos matar a velhice física. E, quem sabe, matarmos também a morte.

 

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