- Ano II - nº 1(13) - Janeiro de 2008.                                                                     Direção: Osiris Costeira

DEPENDÊNCIAS - Ana Lucia Magnelli.

Um pouco de história.

Meu desejo, neste artigo, é escrever um pouco sobre a história do alcoolismo: quando e como começou, como se desenvolveu, quando passou a ser visto como doença.

Para começar, podemos afirmar que o uso do álcool pelo homem já atravessa milênios, desde a antiguidade. Neste período, o consumo era integrado ao cotidiano social, pautado fundamentalmente por questões básicas de subsistência: ora o álcool era alimento, ora modulador do estresse ambiental.

Mas como pode o álcool (ou outra substância considerada psicoativa) ser considerado alimento? Boa pergunta para uma resposta simples.

Na Antiguidade, os fermentados alcoólicos podiam ser estocados, para consumo, por longos períodos, e, por sua vez, o álcool era considerado uma fonte nutritiva armazenável. Explico: na Antiguidade era extremamente difícil armazenar água, não havia locais apropriados para manter a água própria para consumo como existe hoje em dia. A água que havia era para consumo imediato.

A carestia também era muito grande: havia pouca comida e o álcool, como fornece uma falsa caloria (isto é, sensação de satisfação), era usado como fonte nutritiva armazenável.

Estranho? Não, nem tanto. Colocando de outra forma: o homem, para não sentir fome ou sede, usava o fermentado alcoólico como substituto de água e comida. Simples assim (abro um parêntesis aqui para um pequeno esclarecimento: se vocês repararem, atualmente, as pessoas de classe mais baixa e menos assistida, também fazem o mesmo – bebem – para acabar com a fome e não sentir sede. É mais fácil e mais barato).

Um fator diferencial da Antiguidade é que o consumo era feito a partir da planta in natura, em baixas concentrações. Não existia todo o aparato que existe hoje em dia: a produção era artesanal, o que acarretava pouca concentração da substância na bebida, não significando que não houvesse risco de dependência, mas o que se sabe é que quanto maior a concentração da substância, maior o risco de dependência.

Outro fator diferencial era a disponibilidade da planta ser restrito tendo em vista os métodos pouco eficazes de coleta e plantio, associado a expectativa de vida da população, que era baixa se comparada aos dias de hoje (as pessoas morriam normalmente entre os 20/40 anos), ou seja, não havia “tempo hábil” para a instalação da doença e conseqüente aparecimento dos problemas a ela relacionados.

O uso de tais substâncias se restringia aos contextos alimentar, sagrado ou festivo e, quando fora destes contextos, era visto como uma agressão às normas da cultura e do convívio, sendo o usuário punido, pois a abordagem do problema carregava um aspecto moral. O uso só era visto como doença quando evoluía, por exemplo, para uma cirrose hepática, um delirium, algum sintoma físico.

De acesso restrito na Antiguidade e Idade Média, passou a ser massificada após o Renascimento, período no qual o homem passou a adquirir uma autonomia maior sobre seu destino (antes, era Deus ou seus representantes na terra que conduziam o homem).

O Renascimento trouxe vários fatores para o desenvolvimento da autonomia: na agricultura, houve um salto de eficiência, gerando mais alimentos. As grandes navegações trouxeram a Europa novas plantas (tabaco, café). A descoberta da destilação disponibilizou bebidas com concentração maior de álcool.

A Revolução Industrial (séc. XVIII) e a Revolução Científica (séc. XIX) disponibilizaram, em larga escala, os princípios ativos isolados das plantas nas farmácias de todo o mundo e os camponeses migraram para as cidades em busca de novas oportunidades, gerando mais pobreza e desemprego.

Com o acesso de tais substâncias facilitado, o caráter do consumo se modificou: as substâncias passaram a ser produtos comerciais, sendo vendidas livremente em farmácias, bares e armazéns. É neste período que a quantidade de pessoas apresentando problemas com relação ao álcool aumentou.

Bem, se até o séc. XVIII os problemas com o álcool (ou com outras drogas) era visto como desvio moral, a partir daí passou a ser visto realmente como um problema que necessitava ser tratado.

Rush, B. (EUA) e Trotter, T. (Inglaterra), falaram de embriaguez como resultado da perda de autocontrole, comprometendo o equilíbrio saudável do corpo, com os problemas decorrentes do uso se instalando ao longo do tempo, possuindo uma história pessoal. Para Rush: “Começa como uma escolha, torna-se um hábito e depois uma necessidade.”

Huss, M. (1849) descreveu alcoolismo como uma tentativa de definir um conjunto de complicações clínicas decorrentes do uso abusivo e crônico do álcool. Outros pesquisadores conceituaram embriaguez mais próximo do termo que utilizamos atualmente: dependência – uma doença, com prováveis causas biológicas e genéticas – mas, mesmo considerando nesta conceitualização padrões de consumo, história familiar, aspectos da personalidade e psicopatologias, os pesquisadores ignoraram os aspectos psicossocias do uso indevido, deixando espaço para explicações morais, que ligavam o uso da substância a distúrbios de personalidade que tais indivíduos carregavam em si.

O que verificamos hoje em dia é que não são somente os fatores biológicos (endógenos) importantes nas dependências, mas os psicossociais (exógenos) também o são. Nossa genética influencia, é verdade, mas também influencia a nossa vontade, a forma como somos criados, a maneira como usamos.

Paro a história por aqui, deixando o séc. XX para um outro artigo, para um momento de reflexão.

Se formos estudar qualquer doença denominada dependência, o que verificamos é que o fator hereditário da doença é muito importante: se um membro da família é alcoolista, a possibilidade de outros membros virem a ser é imensa. Mas, além deste fator hereditário, que é nosso e vem de dentro de nós (por isso é um fator endógeno – endo: dentro) o fator psicossocial é muito importante por conter simultaneamente o psiquíco e o social.

Segundo o Aurélio psic (o), vem do grego psycho – psychê – que significa alma, espírito, intelecto e social, de sociale (latim), da sociedade, do sociável, que interessa à sociedade. O aspecto psicossocial carrega o aspecto da sociedade e o aspecto individual. Precisamos enxergar como a nossa sociedade usa a substância, trata a substância para, com o nosso intelecto, nossa alma, tentar fazer o melhor uso possível da substância em questão, sem sermos afetados por ela.

Ou seja: sempre temos escolhas para fazer, quando analisamos a situação do nosso ponto de vista. Existencialmente, sempre temos possibilidades de sermos isto ou aquilo, usarmos isto ou aquilo, etc. O que quero dizer é que escolher é usar a liberdade que temos para viver do jeito que queremos.

“Não importa” (metáfora) o que carregamos na nossa genética, importa muito mais o modo como vamos utilizar o que carregamos ao longo da nossa existência. Mesmo na doença, há sempre possibilidades de escolhas, umas muito difíceis, outras, mais fáceis. Mas sempre temos escolhas. É isso que realmente importa: escolher da melhor forma possível como vamos viver no mundo que nos encontramos.

Independente de ser a dependência uma doença e levar anos para se instalar, ao longo desses anos podemos escolher o que mais nos convém, mesmo sendo portadores da doença.

No próximo artigo, escreverei sobre o séc. XX até hoje, suas descobertas, formas de tratamento e ajudas que todos os dependentes (de qualquer substância) podem encontrar para as suas escolhas, mesmos que difíceis, ficarem mais “fáceis”.

CONTATO

fale conosco, tire suas dúvidas, fale com os terapeutas, opine sobre os artigos e dê sua sugestão de conteúdo.

BIBLIOTECA/LINKOTECA SELECIONADA

Nosso objetivo é formar um banco de referências bibliográficas das diferentes Terapias Holísticas, para consulta de todos os interessados em mais detalhes sobre determinado assunto. Seria muito importante, e verdadeiramente interativo, se recebessemos sugestões , objetivando uma das finalidades do site Terapia de Caminhos que é compartilhar experiências e conhecimento. Clique aqui para acessar a terapia que deseja uma bibliografia selecionada para consultas.

"As opiniões emitidas nos textos do site são de exclusiva responsabilidade de seus autores".