- Ano II - nº 2(14) - Fevereiro de 2008.                                                                     Direção: Osiris Costeira

DEPENDÊNCIAS - Ana Lucia Magnelli.

Continuando.

No artigo anterior começamos a entender um pouco mais da história das dependências químicas. Neste, pretendo escrever sobre as modificações que foram, aos poucos, sendo introduzidas principalmente na forma de ver o dependente que, antes rotulado de “viciado”, “sem vontade”, passou a ser visto como doente, fazendo parte de uma família que pode-se considerar “doente” também.

As mudanças ocorreram tanto no campo da medicina como no campo psicossocial. Vamos continuar com as mudanças que foram ocorrendo no campo médico, que, de certo modo, acarretaram a mudança no campo psicossocial.

Entrando no século XX, até meados do século (1960), as classificações eram deficitárias em dois pontos: em um primeiro momento, o foco das dependências era a presença dos aspectos biológicos (complicações clínicas, como delirium tremens, cirrose) e as alterações psicossociais não participavam deste quadro; e, segundo, outros modos problemáticos do consumo não eram referenciados.

A partir de 1960, começou-se a valorizar os padrões de consumo, caracterizando o uso contínuo, periódico ou irregular como, também, os fatores de origem “biológica” (endógenos) e os “comportamentais” (exógenos).

Em 1970, Edwards & Gross descreveriam a “Síndrome de Dependência do Álcool” considerando a dependência uma síndrome nosológica, isto é: a dependência consistia em um grupo de sinais e sintomas repetido freqüentemente em algumas pessoas, sem haver uma causa única ou recorrente (a pessoa não precisaria de uma razão para beber, simplesmente a sua vontade), organizado em níveis de gravidade e moldado por outras influências capazes de predispor, potencializar ou bloquear sua manifestação.

O padrão de consumo foi classificado como de baixo risco (consumo cercado de precauções para prevenção de acidentes, em doses baixas), nocivo ou abusivo (consumo acompanhado sempre de complicações como brigas, acidentes, perdas de compromisso,...) e dependência propriamente dita (consumo freqüente, compulsivo, destinado à evitação de sintomas de abstinência, acompanhado por problemas físicos, psicológicos e sociais).

Em 1975, a Organização Mundial de Saúde (OMS) em seu Manual sobre a dependência de drogas, definiu os termos dependência psíquica e dependência física (termos estes que se encontram em desuso) da seguinte forma: na dependência psíquica existe um impulso psíquico que exige a administração regular ou contínua da substância para produzir satisfação, evitando o mal-estar. Na dependência física, um estado adaptativo se manifesta com o aparecimento de transtornos físicos intensos quando o uso da substância é interrompido, sendo, por este motivo, um potente fator de reforço da dependência psíquica no que se refere à continuação do uso da substância.

Podemos tomar estes modelos como avanços por contemplarem a existência de fatores psicológicos e ambientais envolvidos na dependência, transformando-os como critérios diagnósticos e pela valorização das alterações comportamentais como sintoma da doença (que antes eram vistos como “preguiça”, “mau-caratismo”, etc.)

Numa tentativa melhor de entender a dependência, vamos incluir os aspectos sócio-culturais que também atuam como variáveis dentro da dependência, ressaltando que, mesmo vistas como variáveis, não são capazes de explicar porque uma pessoa, em particular, dentro de um determinado grupo (cultura), tem o problema e outra não.

Comecemos com o álcool, que já se encontra em qualquer cultura desde os primórdios: o efeito de álcool (como de qualquer outra droga) na pessoa depende de vários fatores: físicos, psicológicos, sócio-econômicos.

Economicamente falando, o “status econômico” é um fator importante, visto ser o estresse da pobreza, na maioria dos casos, associado ao uso abusivo do álcool. Podemos falar de beber “normal” e beber “anormal”, mas a fronteira entre eles não é clara. Se formos categorizar, beber “normal” seria o beber cotidiano em refeições, ocasiões especiais ou rituais, de forma moderada, controlado por regras e sanções culturais.

No beber “anormal” já encontraríamos transgressões de tais regras, com um consumo freqüente e excessivo do álcool, que geraria um comportamento embriagado e descontrolado.

Baseados nisto, verificaremos que, muitas vezes, o que é beber “anormal” para uns, não o é para outros, visto ser um comportamento aceito dentro de um determinado grupo. Falamos, aqui, de variáveis étnicas, religiosas e culturais.

Se nos desviarmos um pouco da psicologia e formos dar uma “olhadinha” na história, veremos que existem diversas formas de culturas que influenciam no quadro. Existem as culturas abstinentes, as ambivalentes, as permissivas e as superpermissivas (acho que carecem de explicação pois os próprios nomes já as definem).

O que desejo mostrar com esse histórico é que estudos comprovam que, geralmente, se encontram mais casos de abuso de álcool nas culturas abstinente e ambivalente do que nas permissiva e superpermissiva.

Interessante? Curioso? Pode-se explicar: se eu afasto ou proibo uma pessoa de entrar em contato com determinado estímulo (podemos falar de experiência), talvez, sem que eu perceba, eu a estou empurrando para a ação que eu desejo evitar. Por que? Bem, você consegue se imaginar sendo proibido de alguma coisa, que foi imposto por uma regra ou religião, com o simples argumento de que Deus não permite ou de que isso não é legal? Você simplesmente consegue aceitar tal proibição sem nem pensar em experimentar? Alguns sim, outros não. Afinal, regras também podem ser transgredidas. Qual de nós nunca ouviu falar de que “tudo aquilo que é proibido é mais gostoso”?

A postura mais liberal, por outro lado, vai apresentando os estímulos que a vida oferece, explicando-os, não os tornando proibitivos, mas como escolhas possíveis, e, introduzindo, aos poucos, os conceitos de álcool, droga, cigarro, etc, na medida em que o amadurecimento da pessoa consiga entender determinados valores e regras.

“As normas de consumo de bebidas” são regras tácitas que mostram quem pode beber ou não, em que circunstância, na companhia de quem, em que lugar.

O alcoolismo é o uso abusivo de álcool, sem o controle das normas sociais. Por esta razão, precisamos ver o dependente em um cenário que podemos chamar de microcontexto, dentro de um macrocontexto, que seria a sociedade, com suas regras e funções.

Sei que escrever sobre a historicidade de determinados eventos e explicá-los, tornando-os compreensíveis, muitas vezes é cansativo. Mas, se temos a intenção de fazer com que uma determinada doença ou situação seja melhor compreendida, no caso falamos de dependência, é necessário, algumas vezes, descrever os vários aspectos que geraram determinado conceito.

Nestes dois últimos artigos, venho descrevendo o caminho percorrido, principalmente pelo álcool, de uso social, até se transformar em uma doença chamada dependência.

Os aspectos descritos podem parecer um pouco confusos por trazer uma mesma substância – álcool – de duas maneiras, onde, às vezes, se torna difícil distinguir o beber “normal” do “anormal”. Tal percurso não invalida nem anula a dependência química do álcool, somente descreve o caminho percorrido e as diferentes formas de ver um mesmo problema e de trata-lo.

Tentarei, no próximo artigo, finalizar a historicidade da doença e os caminhos que se delinearam para o tratamento.

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