- Ano II - nº 4(16) - Abril de 2008.                                                                     Direção: Osiris Costeira

DEPENDÊNCIAS - Ana Lucia Magnelli.

Filosofando?

Neste mês em que fiquei sem escrever o artigo para o site, por motivos pessoais, tive tempo para refletir sobre os artigos e o que enfoco neles.

Escrever, falar ou viver dependência é muito, para não dizer extremamente, difícil. Isto porque a dependência é uma doença sutil a qual nos acostumamos a viver como hábitos e, quando agravada, chamamos de vícios, desvios, safadeza ou mau-caratismo. Tudo isto já explicado anteriormente.

Acredito que quando acessamos determinada página da web, que nos foi indicada ou que descobrimos ser legal, queremos não somente nos informar, como ler coisas interessantes e que não sejam tão pesadas, que nos mostrem algum caminho, que nos informe sobre algo que desconhecemos, e assim por diante.

Escrever sobre dependência é muito complicado porque implica ver na vida cotidiana, diária, aspectos que, muitas vezes considerados “bobos”, nos mostram uma determinada doença.

Como é que de um encontro com os amigos num fim de semana, que é para descontrair e nos permitirmos beber, esta que escreve pode transformar em uma doença chamada dependência?

Como é que o simples fato de se gostar muito de comer, principalmente coisas gostosas, pode se transformar numa compulsão, podendo levar a um quadro de obesidade mórbida? Se tenho dinheiro, por que não gastá-lo comprando o que tenho vontade?

Além do que, podemos também ser dependentes de pessoas, computador, internet, msn, academia de ginástica, jogos, etc, só para citar mais algumas, que, se vistas separadamente, são meramente puros hábitos e/ou formas de viver e de se relacionar.

Além destas, posso levantar tantas outras questões que, consideradas ingênuas, podem nos levar a um quadro de dependência. Vocês devem pensar: “Isto é muito chato, tudo aquilo que é prazeroso é perigoso ou faz mal!”

Refletindo sobre estas e outras questões e relendo o que já escrevi, concordo com vocês se acharem o assunto chato, mesmo que escrito de uma forma coerente, mostrando os aspectos histórico e seqüencial da doença. Ao mesmo tempo que é esclarecedor para alguns, talvez seja chato para a maioria. Mas, se isto acontece, por que?

(Para mim, particularmente, acho o assunto muito interessante por me mostrar formas de vida que, dependendo do modo como são vistas, vislumbram um mundo de pessoas que, na realidade, se sentem inadequadas e se escondem atrás de desculpas).

Vamos tentar responder esta pergunta.

Se repararem o título deste artigo, filosofando, vocês também notarão que eu estou desenvolvendo um raciocínio reflexivo, numa tentativa de organizar tudo o que escrevi até agora.

A partir deste ponto, percebi que tenho dois caminhos a seguir:

1 – Continuar escrevendo sobre o alcoolismo (tema dos meus dois últimos artigos), enfatizando as descobertas recentes, o enfoque cognitivista para o tratamento, como o existencialismo, e as outras linhas que abordam o problema, ou seja, continuar numa forma esclarecedora, mas pesada, ou,

2 – Simplesmente parar e refletir o que o tema nos oferece, tentando “suavizar” os aspectos da doença, e, espero, colocando vocês para pensar.

Decidi pegar o segundo caminho nesta nossa trajetória e, caso eu consiga, colocar vocês para pensarem comigo. Se eu conseguir isto, acho que terei atingido o meu objetivo. E, como existencialista que sou, minha abordagem será existencial.

Como um instrumento de ajuda, usarei uma definição de Nicola Abbagnano, em seu Dicionário de Filosofia, para o termo existencialismo/existir. Para ele, “existir significa relacionar-se com o mundo,.... com as coisas e com os outros homens, e,.... as situações em que elas se configuram só podem ser analisadas em termos de possibilidades”.

O Existencialismo é um conjunto de correntes filosóficas cujo instrumento é a análise da existência, tomando-se existência “como o modo de ser do próprio homem enquanto é um modo de ser no mundo, em determinada situação, analisável em termos de possibilidade”.

Posso começar a filosofar escolhendo palavras chaves: relacionar-se com, possibilidades, situação. Já é um bom começo, e agora vem a parte da análise da existência: quando comecei a escrever sobre dependência, de uma certa forma, mesmo que assinalando ser uma doença, sempre deixei claro que também é uma forma de relação que estabeleço com o mundo, dentro de uma possibilidade que me é oferecida por uma situação.

Melhor dizendo: existe uma doença chamada dependência, existe a compulsão, existem formas de tratamento, formas de se ver a doença, formas de agir, etc. Mas, dentro deste quadro todo, existe também a forma que o dependente ou o compulsivo tem de se relacionar com a situação da doença.

Vou tentar explicar de outro modo: Torben Grael, famoso esportista, foi vítima de um acidente no mar, quando uma lancha, desgovernada, atropelou a sua, custando-lhe uma perna. O que ele fez após ter se salvado do estado grave em que ficou: ficou sentado chorando a perda de uma perna, ou, colocando uma prótese, continuou a viver a sua vida, mesmo com limitações? Ele colocou uma prótese, pode não participar mais de campeonatos, mas continua, dentro das possibilidades que a sua situação impõe, fazendo coisas que gosta. Vivendo. Ele não será mais o mesmo, mas optou por viver da melhor forma que encontrou dentro da situação apresentada depois do acidente. Ele foi relacionar-se com o mundo de uma nova forma, tendo uma parte de sua existência modificada após o acidente.

O que isto significa: existe dependência, dependente, compulsão, doença, mas o que é muito importante, além de todos os avanços da medicina, psicologia e afins, é como o “doente” se relaciona dentro da situação apresentada. Qual a possibilidade que vai ser usada e de que forma o “doente” vai lidar com ela.

Sempre existirão várias possibilidades para uma mesma situação: se eu sou alcoolista, posso escolher me tratar ou não. Se escolho me tratar, passo a freqüentar o AA, minha família o Alanon, procuro um médico para lidar com a minha depressão, um psicólogo para ajudar a mim e a minha família no caminho que escolhi, tendo consciência de que eu somente vou controlar a minha doença, não curá-la, pois ainda não há cura para o alcoolismo.

Mas se opto por escolher não enxergar a minha doença e prefiro continuar fazendo o que sempre fiz, pois acho que tudo isso que falam por aí é bobagem e que uma coisa que me é tão prazerosa não pode me fazer mal, pois é nisto em que acredito, vou, sem sentir, ficando cada vez mais dependente, necessitado daquela substância, até o dia em que os danos no meu organismo começarão a serem notados por mim, e aí terei novas possibilidades: me tratar ou não, e assim por diante.

O que quis enfatizar aqui é que, independente da doença, existe uma coisa chamada vontade, dentro das possibilidades que a situação apresenta e que eu, somente eu neste caso, sou responsável pela escolha que faço, optando, ou não, por ver o que estou fazendo e assumindo total responsabilidade sobre aquilo que faço.

Não podemos esquecer que todo dependente possui um co-dependente (ou vários: família) e que o co-dependente também é responsável pelas suas escolhas, as quais, na maioria das vezes, é feita para não desagradar o dependente, sendo ele co-responsável pela doença.

Saber-se portador de uma doença incurável é assustador. Nossa primeira reação é negar aquilo que temos e que nos assusta e limita. Depois da negação, indo direto para o estágio da aceitação, não que não se vivencie os outros, mas o que percebo é que com a aceitação a pessoa percebe-se portadora de uma doença incurável, porém crônica, que apenas limita, mas permite que se tenha qualidade de vida. Sem se poder escolher para o resto da vida, pode-se escolher somente por um dia e fazer das sucessões de dias uma eternidade.

O AA prega: só por hoje eu não vou beber, e, acreditem, só por hoje é muito. Mas também acreditem que se levarmos este lema só por hoje para muitas outras situações de nossas vidas, conseguiremos sair da angústia e verificar que temos outras possibilidades além daquela a que nos acostumamos.

Precisamos ter serenidade para aceitar as coisas que não podemos mudar, coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para perceber a diferença (este é um ponto no qual sempre insisto pois, conseguindo ver o que temos, transformamos o presente em um “presente”).

Cada situação de relação nos coloca em contato com possibilidades, as quais são de nossa responsabilidade. Independente da doença. Sempre temos escolha.

Minha proposta é: mandem e-mails para o site, se quiserem, perguntando mais sobre o tema e/ou, dando idéias de que tipo de dependência vocês gostariam de ver no artigo.

Até o próximo número.

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