- Ano I - nº 8 - Julho de 2007.                                                                              Direção: Osiris Costeira

DEPENDÊNCIAS - Ana Lucia Magnelli.

Dependente, quem, eu?

Vocês já pensaram o que realmente significa a palavra dependência? Afinal, ela tem tantos significados. Vejamos alguns deles, segundo o dicionário Aurélio: - sujeição, subordinação - acessório, complemento, anexo - cada uma das peças ou cômodos de uma casa - edificação anexa puxada a uma casa - dependência física - dependência psíquica

Está claro que neste artigo não vamos falar de construção, mas sim da dependência tanto a nível físico como psíquico, o que não deixa de ser uma construção que fazemos ao longo de anos em nós mesmos.

O que é depender? Depender, comumente falando, é estar sujeito a alguém ou a alguma coisa. É estar subordinado, sob o domínio, autoridade ou influência também de alguém ou de alguma coisa.

Na dependência, nós de-pendemos, nos encontramos na iminência de que algo vá acontecer ou estamos inclinados a que algo aconteça. Precisamos decidir ou que decidam por nós para podermos fazer algo.

Agora imaginem a seguinte situação: você está em casa sozinho e sente vontade de comer alguma coisa. Procura pela cozinha e acaba encontrando uma caixa de chocolate. Você pega a caixa, leva para a sala, senta diante da televisão e começa a comer o chocolate vendo o seu programa favorito. Quando o programa termina, você percebe que a caixa de chocolate também terminou. Tudo bem. Isso pode ser uma situação isolada, que acontece uma vez ou outra. Você fala para você: “Eu não faço isso sempre. Fiz hoje porque estava com fome e vendo televisão.”

No dia seguinte você chega em casa, com fome, cansado e sai a procura de algo para comer. Encontra outra caixa de chocolate e repete os mesmos movimentos do dia anterior. Não tem nada de mais, é o que você novamente repete para si mesmo e vai dormir satisfeito. Sem você perceber, esta cena se repete diariamente e você, sem se dar conta ou tentando se convencer, sempre repete que não tem nada demais, sempre encontrando desculpas que justifiquem o fato de você diariamente, ou quase diariamente, comer uma caixa de chocolate.

Agora eu pergunto: não tem comida em casa ou você depende do chocolate? Melhor: será que você, sem perceber, tem uma inclinação, está sujeito sempre a escolher o chocolate ao invés de uma comida tipo bife com batatas fritas? Será que você, sem perceber, ficou dependente do chocolate e sempre encontra uma desculpa para justificar o fato de diariamente você jantar uma caixa de chocolate?

Cheguei ao ponto que eu quero: falar de dependência física e/ou psíquica. Mas, o que é isso?

Segundo o Aurélio, novamente, é: “Cada um dos estados mórbidos em que a impressão de bem-estar causada por medicamento, droga ou substância, leva o indivíduo a tomá-lo(a), em caráter contínuo ou periódico, inclusive para evitar a sensação de mal-estar que lhe causaria a privação daquele medicamento, droga ou substância.” Entende-se mórbido como doença.

Hoje vamos falar da dependência ao chocolate. Chocolate é gostoso. Quem não gosta de chocolate? A pessoa que não gosta de chocolate tem algum problema, não é isso que dizem? Além do mais, são tantos, com tantos sabores e formas, que fica difícil de escolher um, ou dois.

O que mais me chama a atenção hoje em dia é que está ficando extremamente difícil para a pessoa escolher entre tantos somente um ou dois, pois são tantas as ofertas, que sem perceber você escolheu uma caixa grande, com diferentes sabores e sem se dar conta come todos em uma só noite. É, meu amigo, sem você perceber acabou se transformando num chocólatra, ou seja, num adorador de chocolate, dependente do prazer que ele lhe proporciona, sem o qual faz com que você se sinta mal-humorado, irritado, sentindo que falta algo para que se sinta verdadeiramente feliz. Sem pensar e sem sentir você está dependente e necessita desta substância diariamente, ou quase diariamente, afinal um dia sem não te faz tão mal, mas dois, como é que você faz?

Como escrevi acima: você construiu ao longo dos anos uma de-pendência ao que mais gosta, no caso o chocolate.

Eu conheço uma pessoa que se assumiu, depois de muito tempo, chocólatra. Ela fala que não consegue passar um dia sem comer “os seus chocolates”, isto é, quase uma caixa, e às vezes uma caixa ou duas, de chocolates por dia. Ela prefere comer chocolates a um bom prato de feijão com arroz, bife e batatas fritas. Como ela mesma diz: “- É mais fácil, para mim, ficar sem comida do que ficar sem chocolate. Sempre carrego comigo chocolate para comer quando estiver com fome.”

Ela conseguiu assumir que depende tanto física quanto psiquicamente do chocolate, pois sem ele, ela não sente prazer. Para mim, ela escolheu este caminho sem perceber. Todos nós temos opções: eu posso comer um chocolate somente e me sentir super bem e não comer nenhum e continuar a me sentir super bem. Não sou dependente do chocolate. Simplesmente é uma opção que eu tenho: comer ou não.

Sei que não é fácil abrir mão de alguma coisa quando se necessita dela para se ter prazer, se sentir bem. Se experimento algo que me dá prazer, a minha tendência é repetir tal escolha prazeirosa e sem perceber, fico dependente dela, mesmo que ela me faça mal.

Estou escrevendo sobre definições de dicionário, sobre chocolates, mas o que realmente desejo abordar são as diversas formas de dependências: ao álcool, as drogas, ao tabaco, a comida, ao consumismo, ao jogo, dentre outras e, é claro, também ao chocolate.

Toda dependência se instala sem que a pessoa perceba. Começa devagar, como uma atitude de só por hoje porque estou triste ou porque estou feliz ou porque quero sentir prazer, não quero sentir dor ou desconforto. Na realidade, a pessoa que acaba sempre repetindo uma determinada atitude (compulsão), está tentando preencher um vazio que existe dentro dela e ela não vê, dentro de si mesma, como preencher este vazio, procurando fora o que se encontra dentro dela: o prazer de estar com ela. Podemos chamar este vazio de carência que nada mais é do que a distância que separa a mim de mim mesmo e que, ao invés de preencher comigo, preencho com coisas alternativas e que cada vez mais me afastam de mim.

Sei que se como diariamente uma caixa de chocolate, estou ingerindo calorias demais e nutrientes de menos. Sei que vou engordar, ficar com o rosto cheio de espinhas, mas mesmo assim não consigo resistir e como tudinho, engordo, fico “espinhenta”, mas como me sinto feliz. Pode ser que amanhã, ao acordar e notar que aquela calça já não cabe mais em mim eu me prometa que vou mudar à partir de agora. Mas, quando chego de noite em casa, com tantas opções de comida, o que vou escolher: chocolate.

Pode ser que eu consiga resistir um dia ou dois. No terceiro, estou mal-humorada, irritada, com dor de cabeça, ou seja, insuportável. Aonde foi parar o meu prazer, o meu bom humor? O que faço? Afogo as minhas mágoas no chocolate (pode ser em outras coisas, mas lembrem-se, estamos falando de chocolate).

Podemos escolher mudar este quadro. Somos livres para isso. Porém, temos que nos com-prometer com a mudança e termos certeza que vamos conseguir.

Podemos procurar um grupo de apoio, uma terapia, uma aproximação com esse vazio que faz com que procuremos comer ao invés de entende-lo para nos sentirmos melhor, amigos, passear, são tantas as opções, só que não conseguimos ver até o instante em que alguém conhecido nos assinala que estamos dependentes. Levamos um susto, não aceitamos, não acreditamos. Estamos infelizes e a pessoa insiste. Finalmente aceitamos a verdade. Já é um começo. E agora? Vamos buscar ajuda para mudar essa rotina.

Torno a dizer: não é fácil, mas é possível. Precisamos primeiro querer para começar. Depois fica mais fácil.

Falar do chocolate foi uma introdução a dependências mais sérias como a do álcool e a da droga. Mas dessas falarei na segunda parte.

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