- Ano I - nº 9 - Agosto de 2007.                                                                              Direção: Osiris Costeira

DEPENDÊNCIAS - Ana Lucia Magnelli.

Sou Fofo.

Uma coisa que sempre me impressionou, e ao mesmo tempo que me chamava a atenção, e continua chamando, foi e é o bom humor das pessoas ditas “gordinhas”.

Vocês já repararam que eles estão sempre sorridentes, que para eles nunca existe essa coisa chamada de depressão, sempre fazendo piada com tudo, todos e com eles mesmos e, muitas vezes, se ridicularizando com relação a sua própria gordura. Um dia vi estampada em uma camiseta que uma conhecida minha, que é gorda, o seguinte dizer: “SOU GORDA, E DAÍ.E VOCÊ QUE É FEIO.” Comecei a rir e ela me perguntou o motivo da risada. Respondi dizendo que ela tinha assumido a sua gordura, vestido realmente esta “camisa” e levava numa boa. Maria (nome inventado, e se vocês repararem a maioria dos nomes inventados é sempre Maria, não sei por que?) sorrindo ironicamente e de bom humor como sempre simplesmente falou: “- Se eu quiser emagrecer, é só me empenhar em dietas e exercícios. Mas o feio, às vezes, nem com plástica resolve.”

Agora, por que escrevo sobre este tema? Explico: ao mesmo tempo que me impressionava o bom humor, sempre me questionava se os “gordinhos” não se sentiam inadequados ou tristes nessa condição de carregar sempre um peso a mais que as outras pessoas, quase nunca achar roupas para o seu tamanho, estar sempre aumentando de tamanho, etc... Com o tempo, ficando mais velha, me formando em psicologia, fui fazendo muitas descobertas sobre os “gordinhos” que tanto me impressionavam e que agora pretendo dividir com vocês.

A primeira descoberta que fiz é que eles não são tão felizes assim. Pelo contrário, são tristes, deprimidos, se sentem inadequados e é essa tristeza e inadequação que os leva a comerem cada vez mais e mais, num movimento chamado compulsão. É uma fome compulsiva, que nunca é saciada.

Usando o Houaiss mais uma vez, compulsão significa “tendência irresistível que leva um sujeito a comportar-se de forma contrária a sua vontade.” Isto é, mesmo que a pessoa queira parar de agir de determinada forma, ela não consegue resistir ao “irresistível”. Estudando cada vez mais, descobri que esta camada de gordura que vai se acrescentado progressivamente no corpo dos “gordinhos” é uma forma de defesa contra a real fragilidade deles. É verdade, eles se sentem desprotegidos, frágeis, incompreendidos como pessoas (estes sentimentos aparecem quando ainda não são “gordinhos”) e inadequados como pessoas no meio em que vivem e a forma que eles encontram de se inserir e viver é ir criando esta proteção chamada gordura, que os defende contra qualquer agressão externa, permitindo que eles transitem bem e sempre de bom humor entre as outras pessoas, numa forma “inatingível”.

Vamos pensar logicamente, ou tentar: quando vemos uma pessoa obesa (é, os “gordinhos” foram renominados, tornando-se agora importantes e preocupantes pois a obesidade gera, em pouco tempo, uma série de doenças e problemas realmente sérios, que antes não era tão estudado ou divulgado pelos profissionais de saúde), o que pensamos?

A primeira coisa que me ocorre é: como eles conseguem “arrastar” aquele corpanzil grande e pesado, mantendo sempre o bom humor?

Outra coisa que me ocorre é: o que aconteceu com esta pessoa que ela precisou desenvolver uma defesa tão grande contra si e os outros?

Qual terá sido o motivo (ou motivos) que levou (levaram) esta pessoa a se esconder dela mesma e dos outros?

Na tentativa de compreender melhor, além de trabalhar com pacientes obesos, comecei a freqüentar reuniões de comedores compulsivos, que usa uma estratégia semelhante à dos Alcoólicos Anônimos e outros semelhantes, e ouvir falas diferentes com relação a sua compulsão e sua forma de atuação.

Uma coisa comum praticamente a todos, é que a agressão que muitas vezes deveria ser posta para fora, ser externalizada, eles colocam para dentro deles, internalizando e gerando essa tendência irresistível de comer.

Vamos, mais uma vez definir a palavra (vocês podem achar que me atenho muito e definições, mas aprendi que quando definimos uma palavra, o sentido acaba ficando mais claro e nos leva a uma maior compreensão, então me desculpem se uso muito este recurso, mas vocês acompanharão o meu raciocínio).

AGRESSÃO - . ataque à integridade física ou moral de alguém. ato de hostilidade, de provocação. ofensa ou insulto com palavras.

AGRESSIVO - . Psic. Diz-se de indivíduo em cuja personalidade prevalece como componente a disposição para condutas destrutivas, hostis.

Como escrevi acima, a pessoa considerada obesa não consegue liberar sua hostilidade contra alguém que a magoou e, diante de tal comportamento, ele libera tal hostilidade contra si próprio, se agredindo, não com palavras, mas com a ingestão de comida compulsivamente. Ele se agride para não agredir o outro: eu piso no seu pé e você reclama comigo por não ter gostado da pisada. Eu me desculpo e fica tudo bem. Eu piso no pé de um “gordinho” e, para ele, está tudo bem, em vez de reclamar, faz uma brincadeira e segue em frente. Ele não ficou chateado? Claro que ficou, quem é que não fica? Me “agrediu” re-clamando do pisão? – Não. O que ele faz com esta re-clamação?

Aquilo que nos chateia sempre vai encontrar uma forma de se mostrar e mesmo que não queiramos ver, ela vai continuar procurando vias para poder sair.

Se eu engulo minhas insatisfações, minhas re-clamações, minhas chateações, de que forma elas se mostram para mim? É, uma delas é comendo compulsivamente. Em vez de eu agredir quem me agrediu, eu me agrido, sou hostil comigo, e como, como muito. (por favor, não entendam aqui agressão como brigas, tapas ou socos, mas sim de fatos que acontecem diariamente e que nos levam a nos sentir agredidos).

Em psicologia dizemos que precisamos usar a agressividade construtiva para podermos viver. Precisamos dessa agressividade (que chamamos de motivação) para alcançar aquilo que desejamos, para realizar nossos planos, para construir.

Se repararmos bem, normalmente as pessoas “gordinhas” não possuem essa força, essa disposição. Essa disposição é internalizada e a construção que elas fazem é a capa de gordura que as envolve, que leva anos para ser construída e é muito difícil de ser retirada, des-construída, des-feita.

São pessoas infelizes que não mostram sua infelicidade, na maioria das vezes, deprimidas, mas que continuam se escondendo na armadura que construíram e que funciona, tudo isso para viver.

Se sentem solitários, incompreendidos, às vezes incapazes de modificar sua situação. Ou seja, desmotivados. São pessoas que precisam de apoio, principalmente da família, de acompanhamento médico e psicológico adequados para poderem modificar essa situação.

Para encerrar esta introdução sobre obesidade, deixo escrito umas linhas sobre solidão, que dizem ser de Chico Buarque, mas que também já vi com o nome de outra pessoa.

SOLIDÃO

SOLIDÃO não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo ... isto é carência

SOLIDÃO não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar ... isto é saudade

SOLIDÃO não é o retiro voluntário que a gente se impõe às vezes, para realinhar os pensamentos ... isto é equilíbrio

SOLIDÃO tampouco é a pausa involuntária que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida ... isto é um princípio da natureza

SOLIDÃO não é o vazio de gente ao nosso lado ... isto é circunstância

SOLIDÃO é muito mais que isto...

SOLIDÃO É QUANDO NOS PERDEMOS DE NÓS MESMOS E PROCURAMOS EM VÃO PELA NOSSA ALMA!

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