- Ano I - nº 10 - Setembro de 2007.                                                                           Direção: Osiris Costeira

DEPENDÊNCIAS - Ana Lucia Magnelli.

Sou Fofo II.

Pensando o que escrever neste terceiro artigo, que pretendo falar mais um pouco sobre os “gordinhos”, cheguei a conclusão de que falar sobre dependências não é muito fácil e, talvez seja para os leitores algo que incomode um pouco ou bastante.

Explico melhor: quando descobrimos na net um site que se diz de auto-ajuda, com assuntos esotéricos, o que queremos encontrar são temas que nos coloquem para cima ou no mínimo curiosos, para que possamos conhecer um pouco mais sobre determinado assunto.

Falar, ou melhor, escrever sobre dependências de qualquer tipo não é fácil porque, mesmo que a leitura seja de fácil acesso, é um assunto que incomoda por nos mostrar toda a fragilidade que carregamos dentro de nós e na maioria das vezes não vemos simplesmente por não querermos ver mesmo.

Chocolate é gostoso, comer é gostoso. Aí eu penso: como é que coisas consideradas gostosas podem nos tornar dependentes? Essa tal de Ana não sabe o que está escrevendo. Ao invés de escrever coisas interessantes, as coisas que escreve são contraditórias e, às vezes, depressivas. Prefiro não considerar e talvez nem ler.

É, eu sei que quando escrevo sobre as dependências que desenvolvemos com relações às coisas que são consideradas gostosas (chocolate) e necessárias (comidas), eu corro esse risco. Mas, mesmo correndo tal risco, sinto-me não somente confortável ao escrever, mas também meio que esclarecendo assuntos tão controversos e polêmicos.

Muitas vezes nos pegamos fazendo coisas “bobas” e não temos a menor idéia de que a repetição contínua daquele ato poderá nos causar. Fazemos porque nos dá prazer, nos tira da tristeza, nos afasta da solidão, não nos fazendo pensar na vida que levamos e naquilo que temos que modificar para que possamos ter uma nova perspectiva de vida e, com ela, modificarmos o que for preciso.

Toda mudança exige coragem e atos reflexivos, pensados. São escolhas que temos que fazer usando toda a liberdade de que dispomos como pessoas. Liberdade não é fazer tudo o que se quer. Liberdade é escolher e saber que, ao escolher, teremos que abrir mão de determinadas coisas em detrimento de outras. É saber o que se ganha e o que se perde com cada escolha que se faz.

Quando eu trabalho com dependências e dependentes, o que é notório, é que as pessoas fazem o que fazem de forma irreflexiva, não pensada, buscando somente um prazer momentâneo, passageiro, que o afasta da tristeza do momento.

À partir do momento que começamos o trabalho terapêutico e durante o seu desenvolvimento, as pessoas vão se dando conta de que pensar, refletir, torna as escolhas melhores e não menos dolorosas, pois se antes escolhiam sem ter consciência e se sentiam mal com as escolhas, reflexivamente elas sabem o que estão ganhando ou perdendo quando escolhem e lidar com determinadas perdas é doloroso, mas muito gratificante.

Vou citar um exemplo: uma ocasião estava atendendo uma adolescente que tinha compulsão por chocolate e doces, de uma maneira geral. Sempre que ia fazer uma refeição, a comida de sal era colocada em segundo plano para depois poder comer a sobremesa, que na maioria das vezes consistia de algo feito com chocolate (torta, musse, pavê, etc) e até o próprio chocolate.

Mona (seu nome fictício), começou a se sentir gorda e feia, mas ao mesmo tempo não conseguia parar de agir dessa forma. Então, muitas vezes após as refeições, ela ia direto para o banheiro provocar vômito para não engordar (ela não era gorda, mas se sentia gorda em função de sua extrema culpa por não se alimentar saudavelmente).

Quando chegou ao meu consultório, estava desconfortável e ao mesmo tempo inconformada com o que fazia a si própria, sem ter a menor noção de que todo esse ritual era uma agressão muito forte a si mesma, tudo gerado por um forte sentimento de inadequação.

Começamos o nosso trabalho e com o desenvolvimento do processo terapêutico Mona foi descobrindo que ela voltava sua agressão para si mesma para poder estar bem com os outros, especialmente com a sua família. Ela não se sentia apoiada pela sua família em escolhas importantes que fazia e sentia, em muitos momentos, que os desapontava.

A família de Mona tinha expectativas bem grandes com relação a ela, só que as expectativas eram da família e não dela, ela tinha escolhido um outro caminho. Sem o apoio da sua família, seguindo o seu próprio caminho, quando se sentia frustrada, toda a sensação de divisão gerada pela sua escolha (sua família desejava que ela fosse médica, mas ela escolheu fazer letras) aflorava e sua solidão aumentava. Sentindo-se triste e frustrada, Mona entrava no processo compulsivo de comer e depois vomitar (gente, esse vômito é um prenúncio de uma outra doença chamada bulimia nervosa, porta de entrada da anorexia nervosa, que falaremos em outra oportunidade, já que estamos escrevendo sobre dependências e compulsões a comida).

Quando me procurou, a minha primeira impressão era de que ela carregava o mundo nas costas, um mundo cheio de culpas e decepções. Mas, o que me chamava atenção era o seu bom humor, que escondia muito bem toda a sua tortura interna, mostrando aos outros que tudo estava sempre bem, muito bem.

Ela não me procurou porque achava que tinha um problema. Ela me procurou porque sua amiga assinalou que ela tinha um sério problema e que precisava se tratar antes que tal comportamento gerasse outros males físicos e psíquicos.

Sua divisão estava muito clara para mim, mas não para ela. Mona achava normal o que fazia: se satisfazia com os seus doces e depois, para não engordar, vomitava e voltava ao normal. De uma vez por semana, passou a ser todos os dias, compulsivamente.

Aqui vocês podem me perguntar o que isso e dependência tem em comum. Toda dependência começa com um estado compulsivo, algo que eu não quero fazer, mas que não consigo não fazer. Então simplesmente faço, não importando o que aconteça depois (vocês se lembram da definição de compulsão: “tendência irresistível que leva um sujeito a comportar-se de forma contrária a sua vontade.”) Mona estava ou não fazendo algo contra a sua vontade?

Sendo chamada a refletir sobre o seu comportamento, Mona foi se conscientizando de que escolhera, sem refletir, um caminho de agressão a si mesma: por não conseguir (ou achar) agradar a seus pais no que eles esperavam dela como profissional, sem se sentir segura e apoiada o suficiente para trilhar o caminho que escolhera, sentindo-se sempre criticada por querer ser uma simples professora e não uma médica. Ela foi se afundando cada vez mais no ato compulsivo de comer e vomitar.

Saímos um pouco do assunto obesidade, mas estamos no assunto compulsão, que também é uma dependência. Mona dependia desse ritual diário para se sentir bem, sem ter consciência do mal que fazia a si própria. Com a reflexão progressiva dentro do processo terapêutico, ela foi se dando conta de que tinha outras opções, escolhas, sem ter a necessidade de se agredir diariamente, nem vomitando ou engordando.

Através do seu fortalecimento gradativo, ela foi, através de escolhas reflexivas, sabendo o que ganhava e o que perdia com o que escolhia. Foi deixando de se sentir culpada ou solitária, pois foi se descobrindo dentro dela mesma e, através dessa descoberta de si, começou a se sentir fazendo parte novamente da sua família e do meio que a cercava. Ela encontrou não somente a si, mas também a sua alma. Mona agora está bem.

O que cada vez fica mais claro para mim é que, dentro de qualquer quadro de dependência, a solidão que nos afasta de nós mesmos é a que nos impele para aquilo que dependemos, muitas vezes sem necessitar.

Esse é o discurso de todos os “gordinhos” com os quais tenho contato e que se encontram não somente em processo terapêutico, mas em dieta e aguardando cirurgia bariátrica para redução do estômago, pois sabem que a dependência, muitas vezes, é mais forte que a sua vontade. Diariamente eles travam uma batalha para se “manterem limpos” (ficar longe dos doces, das comidas, dos chocolates). Eles sabem que não precisam de tanta comida, de tantos doces, etc, mas ao mesmo tempo, não se sentem satisfeitos quando ingerem o necessário para se manterem saudáveis. Acham que está faltando algo dentro deles e acabam enchendo esse algo com comida, quando o que falta dentro deles são eles mesmos. Quando eles se encontram e mandam embora a solidão, não falta mais nada, eles ficam inteiros e fazendo parte de um todo maior.

Por esse motivo é que concordo com o que diz Chico Buarque:

SOLIDÃO É QUANDO NOS PERDEMOS DE NÓS MESMOS E PROCURAMOS EM VÃO PELA NOSSA ALMA!

Aqui complemento:

NÃO HÁ ALEGRIA MAIOR EM SERMOS PARCEIROS DE NÓS MESMOS, TANTO NAS ALEGRIAS QUANTO NAS TRISTEZAS.

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