- Ano I - nº 11 - Outubro de 2007.                                                                           Direção: Osiris Costeira

DEPENDÊNCIAS - Ana Lucia Magnelli.

Ser dependente.

Escrever sobre dependência é tentar não cair em um lugar comum. Ao mesmo tempo em que é um tema pesado, podemos pensar dependência em termos de necessidades, o que talvez suavize mais o assunto. Bem, vamos tentar.

Podemos definir necessidade como: “...aquilo que é inevitável, fatal; aquilo que compele ou obriga de modo absoluto ou aquilo que é absolutamente necessário, exigência.”

Quando nascemos, necessitamos de nossos pais para suprir nossas necessidades básicas: comer, alimentar, limpar, vestir, dar carinho. Somos totalmente dependentes deles para podermos nos sair bem dentro do nosso crescimento. Aos poucos, vamos conseguindo não necessitar (depender) tanto deles em pequenas coisas: começamos a dar nossos primeiros passos, já podemos pegar comida, tomar banho sozinhos, mas a independência total ainda demora, e, sinceramente, não sei se chega nunca (vou explicar por que mais adiante).

Começamos sendo levados a escola. Depois aprendemos a ir sozinhos (a pé ou de ônibus, tanto faz). A primeira vez que saímos sozinhos traz uma sensação de liberdade muito grande: nos sentimos o máximo, independentes, como se fôssemos donos totalmente de nossas vidas.

Mas, ainda necessitamos (dependemos) de nossos pais: não trabalhamos, vivemos de mesada para começar a aprender como se controla dinheiro, gastando nas coisas que queremos, mas não são tão necessárias porque o necessário realmente ainda é dado por nossos pais. Com a nossa mesada compramos balas, revistas, etc, mas roupa, comida, contas, ainda não são problemas nossos, são deles.

Vamos crescendo, ficando cada vez mais independentes: começamos a chegar tarde em casa, aprendemos a dirigir, alguns ganham carros, outros arrumam um emprego que renda mais do que a mesada que ganham dos pais, continuamos a estudar, escolhemos uma profissão, nos formamos, arrumamos um emprego melhor.

Dentro deste percurso, muitas vezes começamos a namorar alguém, fazemos planos juntos, comuns, caminhando unidos e acabamos casando ou não, mas o fato é que saímos da casa dos nossos pais, casados ou não.

Não necessitamos mais deles como no início. Agora somos independentes, donos do nosso próprio nariz, fazemos o que queremos com o dinheiro que ganhamos e escolhemos a vida que achamos melhor viver.

Posso sair da casa dos meus pais e ir morar sozinha. Acho que não dependo de ninguém, só de mim mesma. Mas, de repente bate uma saudade da casa deles, do meu antigo quarto, da comida da mamãe. Pego o telefone, ligo para eles, digo que estou com saudades, querendo saber deles ou apareço lá para jantar (ou almoçar), desfrutar da companhia deles um pouco, de forma diferente da inicial. Conversar, sem compromisso, satisfazendo apenas a necessidade da companhia deles.

Aqui vai a minha pergunta: nossa necessidade (dependência) acabou, continuou ou simplesmente se transformou numa necessidade (dependência) mais suave, mais receptiva?

Agora podemos trocar com nossos pais as experiências que talvez antes não nos agradava que eles ficassem sabendo. É claro que continuaremos ainda com alguns segredos, mas vemos que é diferente, é uma necessidade mais independente do que dependência total.

Quando escrevi no início do texto se não sabia se a independência total é alcançada é porque acho que transformamos nosso estado de extrema dependência para uma independência dependente de coisas que nos fazem sentir bem: neste caso, nossos pais.

Então vamos tentar pegar um novo caminho agora: do mesmo modo que sentimos isso com relação aos nossos pais, se percebermos, também sentimos com relação às outras coisas.

À medida que vamos crescendo, vamos transformando determinadas coisas de nossas vidas em necessárias e, quando não as temos, sempre arrumamos um jeito de consegui-las.

Vamos parar um pouco para refletir: será que vocês já perceberam quantas coisas transformamos em necessidades sem elas serem realmente necessárias?

Será que algumas dependências (necessidades) que vamos criando ao longo da vida não são somente escolhas que fazemos sem saber porque ?

É claro que teremos necessidades a serem atendidas pelo resto de nossas vidas: comer, morar, vestir, trabalhar, pagar contas, e outras mais realmente necessárias a nossas vidas. Da mesma forma, criamos outras que não são tão necessárias, mas que são transformadas por nós mesmos em necessárias. Ficamos, sem sentir, dependentes delas e fazemos qualquer coisa para não ficarmos sem elas.

Do que eu estou escrevendo: escrevo sobre as possibilidades que temos, mas que transformamos em necessidades das quais dependemos e ficamos mal sem elas.

Exemplo: chegou o fim de semana. Na saída do trabalho nos reunimos para ir a um barzinho legal, jogar conversa fora, beber um chopinho (ou dois), dividir uma pizza ou um churrasco, enfim, tentar relaxar das tensões da semana e combinar algum programa (ou não) para sábado ou domingo. Às vezes acontece do fim de semana ser todo ocupado. Marcamos cinema ou teatro, ida à praia, barzinho novamente, e no domingo procuramos chegar mais cedo em casa porque na segunda trabalhamos de novo.

Até aí tudo bem, normal. Então, este pequeno programa passa a ser repetido todo final de semana e naquele fim de semana que não saímos não conseguimos ficar sossegados em casa, vendo uma televisão ou assistindo um bom filme no vídeo. Temos uma necessidade visceral de sair, encontrar pessoas, não conseguimos simplesmente relaxar dentro do sossego da nossa casa.

O programa de final de semana começou como uma possibilidade agradável que foi aos poucos se transformando em necessidade sem perceber ou admitir para mim mesmo que sou dependente de fazer isso todo final de semana.

Em casa fico inquieto, nervoso, irritado, mas quando saio volto relaxado: bebi, conversei, passeei, não pensei se ia gastar muito ou pouco, pois o meu interesse era somente a diversão.

Muitas vezes perdemos o controle das coisas da nossa vida por não conseguirmos ver que transformamos possibilidades em necessidades, que no final das contas nada mais são do que dependências: dos “amigos”, da diversão, da bebida para relaxar, do cinema para não pensar, etc.

Com isso, vamos aos poucos, perdendo o “controle” sobre as nossas vidas. Não paramos para saber se neste fim de semana temos dinheiro para beber ou não. Não quero saber: quero sair e me divertir, pois trabalho a semana toda e mereço um pouco de distração para poder começar tudo de novo na próxima semana. Não fazemos isso somente com saídas com amigos. Vamos ao shopping (o que tem de mal nisso?), e na maioria das vezes gastamos mais do que podemos, pois achamos, ou melhor, temos certeza de que merecemos. Trabalhamos tanto para que? E o marketing, como influencia? Você, mulher moderna, ficará muito bonita neste vestido que combina tanto com esse sapato que pode ser usado com esse relógio e essa bolsa.....UFA!

Sem perceber, vamos transformando hábitos em necessidades sem saber realmente o motivo, e quando vemos somos dependentes.

Eu conheço uma pessoa que não passa um fim de semana sem ir ao shopping para comprar umas “coisinhas” para ela. Ela sempre está precisando de algo e acaba comprando mais do que pode e sem precisar realmente daquilo que comprou.

Talvez tenha ficado dependente de compras ou shopping para encobrir frustrações suas ou carências desenvolvidas ao longo da vida que não foram elaboradas e nem refletidas.

Nós não conseguimos ver com clareza o quanto somos dependentes de tantas coisas que não nos são necessárias, e quando alguém fala de dependência aquilo nos incomoda, pois, de alguma forma, aquela pessoa que falou de dependência apontou o dedo para a nossa ferida que, aberta, não nos deixa refletir antes de dar o próximo passo.

Se refletirmos, temos condições para modificar muitas coisas em nossas vidas, coisas estas que nos atrapalham, nos sufocam, nos entristecem. É melhor não pensar e, partindo do princípio que merecemos tudo de bom, acabamos não vendo o tamanho do mal que estamos nos fazendo ao comprar coisas que não precisamos, beber mais do que devemos, gastar mais dinheiro do que podemos, enfim, nos fazer mais mal do que bem, até atendendo as exigências que muitas vezes nossos filhos fazem e que nos fazem sentir culpa se não forem atendidas.

Por essas ou outras razões é que sempre que posso leio a Oração da Serenidade que diz:

DEUS, CONCEDEI-ME SERENIDADE PARA ACEITAR AS COISAS QUE NÃO POSSO MODIFICAR, CORAGEM PARA MODIFICAR AQUELAS QUE EU POSSO E SABEDORIA PARA PERCEBER A DIFERENÇA.

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