- Ano I - nº 12 - Novembro e Dezembro de 2007.                                                Direção: Osiris Costeira

DEPENDÊNCIAS - Ana Lucia Magnelli.

Tempo.

Neste artigo desejo escrever à respeito de algo que é comum a todos os dependentes: tempo.

A dependência, de qualquer tipo, é uma doença tratável, controlável, mas podemos dizer, incurável.

A dependência, diferentemente de outras doenças crônicas, citando Homero em sua Odisséia, “faz esquecer qualquer sofrimento”. Mas o que é isto?

Bem, vamos tentar explicar: a pessoa dependente é um sujeito ativo, isto é, possui uma forma de comunicação própria, ímpar e só sua para se comunicar consigo mesmo e com o meio em que vive. Nesta comunicação a pessoa se utiliza de sua subjetividade e de sua identidade em cada interação (vamos entender interação como comunicação com tudo, com todos e consigo próprio).

Se desejamos ajudar um dependente, precisamos compreender o que o leva a um consumo repetido da experiência, pois esta é considerada indispensável à satisfação de suas necessidades tanto nos planos: social, cultural, afetivo e cognitivo.

Normalmente, como já foi dito anteriormente, a dependência vai se instalando sem que a pessoa perceba e de um modo sutil. Começamos a repetir padrões que nos satisfazem, sem termos consciência do que nos faz repetir sempre a mesma ação: comer muito, comprar muito, beber muito, jogar muito, fazer tudo muito.

Se pararmos um pouco no tempo, vamos verificar que aquele prazer que nos oferecemos por um momento está ocultando alguma dor ou sofrimento que tentamos afastar de nossas vidas.

Quantas vezes, quando algo não vai bem na sua relação amorosa, depois de um grande desentendimento com seu parceiro(a), você resolve ir as compras (mulher) ou ir a um bar (homem), beber com os amigos? Por acaso estas não são atitudes que nos afastam daquilo que está incomodando e que não queremos pensar?

É neste ponto que entra a nossa subjetividade e identidade: como foi que aprendemos com nossos pais ou com as outras pessoas que nos rodeavam desde que éramos crianças? Não serão estes padrões que repetimos sem pensar todas as vezes que nos aborrecemos ou sentimos algum desprazer que desejamos afastar?

Tais padrões são repetidos automaticamente, sem termos a mínima consciência deles pois, para nós, são tidos como normais, e por isso mesmo acabamos ficando dependentes deles.

Quando escrevo tempo, pergunto: foi ou não o tempo que nos levou a dependência que desenvolvemos?

Repetir sucessivamente durante horas, dias, anos, num presente que já foi passado e que se transforma em futuro, uma determinada ação, não é ficar dependente dela ?

Também precisamos levar em consideração que, nesta época em que vivemos, a oferta de produtos é muito maior que na dos nossos pais e que o marketing também é impiedoso. Como sempre nos oferecem coisas maravilhosas, que nos darão prazer, compramos a idéia para que ela nos afaste daquilo que não desejamos sentir: o sofrimento.

É claro que quando Homero escreveu “faz esquecer qualquer sofrimento”, ele estava se referindo ao ópio, que na sua época era medicinal, receitado as pessoas que sentiam muita dor.

Quando peguei a frase de Homero emprestada foi porque, mesmo sendo antiga, ela é super atual: nossas dependências fazem com que esqueçamos qualquer sofrimento, mas aqui acrescento um outro dizer mais atual, nos fazem esquecer qualquer sofrimento, mesmo que seja somente por um momento pois, quando o momento passa, o sofrimento volta.

O dependente é um eterno sofredor: ele sabe que não pode e não deve fazer, mas faz. Sua motivação para parar de sofrer é maior. É uma escolha: ele pode escolher encarar de frente aquilo que o desagrada, tentar resolver de outro modo, mas ele não sabe como. É muito sofrimento e são oferecidos tantos meios de libertação que não há nada de mal em se afastar daquilo que o incomoda, mesmo que depois o incomode novamente. Aí ele se afasta de novo e fica repetindo isto todo o tempo, o tempo todo.

Mas, da mesma forma que é o tempo que leva a pessoa a criar a dependência, é com o tempo que a pessoa precisa a aprender a lidar com ela e com os motivos que a levaram a dependência. E, muitas vezes, lidar com o tempo desta forma não é muito bom.

Estamos acostumados a ficar “doentes”. Quando isto acontece, procuramos um médico, ele nos examina, pede exames, chega ao diagnóstico, prescreve a medicação e como fazemos para poder melhorar. Seguimos a prescrição e melhoramos (isto em caso de doenças que não crônicas, pois a diabetes também precisa de tempo para ser controlada, não ficando a pessoa curada, mas sim controlada).

No caso da dependência, isto não acontece. Existem remédios para alguns tipos, para outros não. Na maioria das vezes, se faz necessário grupos de acompanhamento que dão apoio para o controle da dependência (ou compulsão), pois a dependência é uma doença crônica que exige controle constante.

Na maioria das vezes o que percebo é que o dependente muitas vezes não se conscientiza de como é ser dependente, muitas vezes afetando também a sua família.

Lidar com um dependente não é fácil, porque muitas vezes exige privações tanto da família como do dependente. Töda doença é um sistema, aonde a pessoa, o doente, não está sozinho, está com a sua família.

Dependendo do grau de dependência, o papel que a pessoa desempenha na família terá que ser desempenhado por outra pessoa que muitas vezes não se encontra preparada para tal função.

Lidar com a “cronicidade” da doença, muitas vezes é tão limitante quanto frustrante, isto porque por ser uma doença crônica, poderão haver períodos de recaída que envolverão toda a família.

A família do dependente também necessita ter consciência do problema, pois ela é se transforma naquilo que chamamos de co-dependente. Da mesma forma que o dependente esconde as suas dores atrás da dependência, a sua família o transforma num problema para também esconder as suas dores e frustrações.

Muitas vezes vemos em famílias de dependentes químicos uma disfuncionalidade parental que é acobertada pelo problema do filho dependente e, da mesma forma que este filho dependente pode manter a família unida, na maioria das vezes, em outros momentos, a família se separa e quem fica com o dependente, continua acobertando a sua dor cuidando do doente.

Isto acontece porque é muito difícil olhar de frente para determinadas dores que carregamos e preferimos negá-las, transformando-as num problema externo a nós e não em nós.

Da mesma forma que a família adoece, ela cura. Ela tem este poder. E é o tempo que, da mesma maneira que adoece, cura. Da mesma forme que ele “engole” as dores e frustrações, ele também pode criar novas formas de encarar o problema e solucionar as dores advindas das frustrações que a família, de uma forma geral, carrega.

Na dependência, não existem culpados, nem vítimas. Por mais que se tente encontrar culpas e vítimas, é muito difícil. A dependência é uma disfuncionalidade familiar que não foi percebida e, por essa razão, não foi tratada.

Muitas vezes problemas não resolvidos, não falados, geram mágoas e frustrações que. Com o tempo, nos levam a depender de alguma coisa que nos dê mais prazer do que a nossa família ou do que a vida que levamos.

Falar das mágoas, das dores, das opções que temos, ou seja, das coisas que nos incomoda e que podemos mudar, com o tempo, é um dos caminhos para se evitar a dependência.

Claro está, também, que em muitos casos existe a parte genética, que já está sendo comprovada através de estudos e pesquisas.

Mas esta parte é um outro momento.

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