- Ano II - nº 9(21) - Novembro/Dezembro de 2008.                                                     Direção: Osiris Costeira

DEPENDÊNCIAS - Ana Lucia Magnelli.

Doença Social?

Não sei se o que vou escrever tem relação com os outros artigos que venho escrevendo (certamente não está relacionado com os florais). De alguma forma, no meu entender, está. Explico: escrevo sobre compulsões, dependências, fragilidades. Escrevo sobre assuntos que acometem qualquer ser humano no seu meio social, no qual está inserido, vivendo em relação com o mundo. Todos nós vivemos num mundo de relações.

Com este artigo pretendo escrever sobre aquilo que chamo de “doença social”, uma tendência crescente nos dias atuais, que, com certeza, é alvo de estudos de sociólogos, psicólogos e afins.

Estamos vivendo num mundo onde as desgraças e tragédias viraram espetáculos populares, de largo alcance, um verdadeiro circo, onde seus protagonistas sempre estão em desespero e em situação de risco iminente.

Será que estamos tão anestesiados e apáticos para olharmos para as nossas vidas e, talvez, para aquilo que nos falte para sermos felizes e completos que, sem percebermos, nos faz olhar para a tristeza do outro, não numa tentativa de ajuda mas, numa postura de telespectador, torcendo pelo mocinho, mas quase sempre vendo o bandido ganhar?

O que vêm acontecendo atualmente me lembra muito os antigos espetáculos romanos. Em Roma, e em outras cidades não tão importantes, como forma de distração, montava-se um grande “circo” onde a população, para se divertir, assistia a homens lutando com outros homens ou com animais. Era o maior espetáculo e cabia aos espectadores decidirem o que aconteceria com o perdedor, caso este não chegasse morto ao final da luta. Os gladiadores iam para a arena divertir o povo. Lutar um contra o outro, para sobreviver o mais forte e, ao vencedor, dependendo do voto do povo que assistia ao espetáculo, cabia matar o perdedor (quase sempre o povo mandava matar).

Em Roma, era o Coliseu o lugar destes espetáculos. Se procurarmos no Aurélio o significado de Coliseu (latim) veremos que é circo. Se verificarmos na variável grega, kolossiaîos, o significado é colossal. Verificamos que realmente eram espetáculos colossais.

No mesmo Aurélio, procurando gladiador (do latim gladiatore) – S.m. – “indivíduo que nos circos romanos combatia com outros homens ou com feras, para o divertimento público.”

A questão que pretendo levantar com este texto é: desde tempos remotos, a diversão do povo consiste em ver as “lutas” dos outros, sempre torcendo para uma das partes? Ou seja, sempre veremos repetidos tendências antigas, só que com outro visual (se pudermos chamar o “cenário” onde o drama se desenvolve assim)?

Partindo deste ponto, vejo que o que escrevo está totalmente relacionado. O ser humano possui uma tendência a repetição, ou seja, uma compulsão. Ser compulsivo, não significa necessariamente consumir em demasia bebidas, drogas, comidas, etc. Ser compulsivo significa repetir sempre algo que faça com que eu preencha o vazio que existe em mim e que eu, sem conseguir olhar para ele, preencho com as coisas fora de mim. Não importa como, mesmo que seja participando da tragédia alheia como coadjuvante. Talvez ser coadjuvante não me faça sentir impotente frente a dor do outro e faz com que eu me afaste da minha dor, a qual não tenho com quem compartilhar, por ela não ser um espetáculo público, mas sim, um espetáculo só meu.

Mas eu também posso transformar a minha dor em um espetáculo, no grande circo da vida, fazendo de participantes os telespectadores que, ávidos por um show em tempo real, participa ativamente.

Vejamos este caso que aconteceu em São Paulo, envolvendo uma adolescente e seu namorado. É o caso Eloá.

Pelo pouco que li a respeito, me parece que o seu namorado Lindemberg sofria também de um ciúme patológico. Não conformado com o rompimento, ele quis transformar a sua dor em um grande espetáculo, fazendo com que sua ex-namorada sentisse a mesma dor que ele dizia estar sentindo.

Depois de repetidas ameaças, invadiu o apartamento da ex-namorada onde se encontravam, além dela, mais 3 pessoas, todas jovens. Armado, com ciúmes, transtornado, começou a montar o espetáculo que duraria 100 horas e que culminaria na morte da adolescente e no ferimento de sua amiga. Os dois amigos da jovem foram liberados no primeiro dia.

Ao ser avisado pelo pai de Eloá que a polícia já tinha sido avisada, ele, transtornado e transformado disse, segundo a imprensa: “Agora é que o terror vai começar.” E, com o terror, começou o show, um verdadeiro espetáculo de fazer inveja a qualquer gladiador, se vivo fosse.

Ele deu entrevistas por telefone, e, observando todo a aparato policial e jornalístico, também segundo a imprensa, berrou: “Sou o príncipe do gueto, eu sou o cara.” Enquanto tudo isto acontecia, milhares de olhos não desgrudavam da tela da televisão, além de ter no entorno do prédio, vários moradores e curiosos com a situação, ansiosos por saber como seria o desenrolar deste espetáculo.

O final foi uma tragédia, como todos sabem.

Por que escrevo sobre isto? Escrevo para levantar uma questão: somos dependentes ou co-dependentes de situações espetaculares e cruéis, como se fossem capítulos de novelas, que devemos assistir diariamente para ver até que ponto os protagonistas da história vão terminar no final, sempre, é claro, torcendo pelos mocinhos?

Se formos comparar, na história antiga, os povos chamados bárbaros, invadiam cidades, saqueavam, estupravam, matavam e voltavam para as suas casas, enquanto que as pessoas que tinham conseguido sobreviver, retornavam as suas casas e re-começavam a re-construção de suas cidades e casas.

Nesta época, não havia mídia, nem jornais ou revistas. As informações eram passadas boca a boca, com as cidades se defendendo como podiam.

Atualmente, me parece que não existe muita diferença entre os antigos saqueadores e conquistadores com os atuais Lindembergs da vida. O que mudou? A velocidade da informação que agora é passada em tempo real, os espectadores, que não precisam fugir assustados de suas cidades. Muito pelo contrário, no conforto de suas casas, assistem a tudo, como se fosse o desenrolar de uma novela e palpitam em como será o final.

As vítimas atuais, também localizadas em casas, não mais em cidades, depois que tudo termina, partem para a re-construção, tentando esquecer o que aconteceu, se possível, e se defendendo de um novo ataque. Talvez fiquem anestesiadas, ou não, como o resto de nós. Antigamente usava-se ópio, espetáculos circenses, bebidas, tudo para distrair o povo.

Hoje em dia, além de bebidas, drogas, jogos, compras, usa-se a tragédia em tempo real para entreter uma população anestesiada, apática, desmotivada, vazia de si mesmo.

É claro que devemos ser solidários com a dor dos outros, tentar ajudar quando nos é permitido, mas não é respeitoso transformar em divertimento a dor alheia.

Hoje em dia, depende-se cada vez mais dos espetáculos colossais e trágicos para a diversão. Quando não são as drogas, são os espetáculos. E, não muito raro, as várias formas de dependência se associam.

Precisamos ser dependentes de soluções para que coisas como estas não aconteçam.

Este é o motivo que sempre me leva a refletir se dependemos e vivemos uma doença social, que de forma diferente, se arrasta por séculos, só que agora, de uma forma mais rápida, vivida em tempo real?

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