- Ano II - nº 2(14) - Fevereiro de 2008.                                                                     Direção: Osiris Costeira

“DOUTOR, EU NÃO QUERO MORRER, ME AJUDE, PELO AMOR DE DEUS”.

A morte não é tema raro nas conversas de consultório com os terapeutas, principalmente se observarmos os disfarces pelos quais o tema é inserido com outros nomes e nascido de outros assuntos, aparentemente diferentes do da morte.

Desta maneira, o tema é escondido do consciente e ”fala” através de uma sintomatologia extremamente rica que vai das somatizações e da ansiedade geradora de insônias, à angústia motivadora de grandes depressões. Em todos, a necessidade de fugir de uma realidade adversa de nossos dias, diferente do planejado no imaginário de nossos desejos.

Contudo, o que se observa nessas mesmas conversas é que, com exceção dos grandes quadros de depressão psicótica, felizmente raros, o paciente ao “almejar” simbolicamente a morte está, isto sim, pedindo socorro de uma maneira mais dramática e primitiva, em que, na grande maioria dos casos, morrer seria o seu último desejo.

A vida é um instinto muito poderoso que comanda todos os princípios de sobrevivência, não só no homem mas em todos os animais. Viver é primordial, é mandatório, é indiscutível. Para tanto, este instinto requer uma série de “lubrificantes” que viabilizam o entendimento da necessidade da vida plena, pelo menos em nosso estádio de evolução espiritual. E esse “lubrificante” é, sem sobra de dúvida, o AMOR, principalmente em sua dinâmica de saber dar e receber, talvez o mais dificil dos exercícios de vida.

Há muitos anos, ainda acadêmico da Faculdade de Medicina, estagiando no Pronto Socorro Psiquiátrico Pinel, no Rio de Janeiro, fiquei muito impressionado com uma ocorrência atendida – numa bela manhã de domingo, não me esqueço – logo no início do plantão - em que fomos atender, num famoso edifício de dezenas de apartamentos “quarto-sala-conjugado”, uma mulher, acredito hoje de seus 30 anos, que tinha “tentado o suicídio”, e a equipe da ambulância do Pronto Socorro Miguel Couto, depois de a ver, transferira o chamado para o Pinel, como caso psiquiátrico.

Ao chegarmos ao seu apartamento, encontramos a paciente deitada num sofa-cama, tendo ao lado, numa mesinha, um frasco de Gardenal (potente barbitúrico) com metade cheia, ou metade vazia, destampado e com alguns comprimidos espalhados pela mesa. A paciente, sonolenta e com os olhos semi-cerrados, balbuciava quase inaldivel: “Doutor, eu não quero morrer. Doutor, eu não quero morrer, me ajude, pelo amor de Deus”. Algumas décadas se passaram deste momento, mas jamais o esquecerei pela dramaticidade de quem queria viver e “fantasiou” que queria morrer. Foi a maneira que encontrou de pedir socorro. De pedir ajuda.

Na verdade, vivemos eternamente em busca de afeto, de amor, como quem necessita de oxigênio para respirar, e conseqüentemente viver. Quando por alguma razão não o encontramos, perdemos o rumo da vida e, “poeticamente”, a razão de viver. E aí alguns querem morrer, pois não suportam a sensação de rejeição.

Realmente, a dinâmica do amor é algo complicado pois, geralmente, nos esquecemos que é um sentimento duplo, em que a sua presença requer dois sentidos: saber dar e saber receber amor. Além disso, amar é um verbo que se conjuga de várias maneiras, pois é sinônimo de respeitar, confiar, acreditar, ajudar, dividir, compartilhar e, inclusive ou principalmente, perdoar, em todos os seus tempos e modos.

As pessoas não querem morrer, querem amar e ser amadas não apenas em uma paixão, mas também em termos de afeto, companheirismo, cumplicidade, de consideração e aceitação pelo grupo social em que vivem. A morte se torna, tão somente, uma vertente simbólica pela qual os poetas exibem a suas carências de afeto, e transferem para o desconhecido da morte toda a tristeza da rejeição e do desamor, criando, desta maneira, a esperança de no outro mundo realizar todos os desejos não conseguidos neste, sintetizados pela conquista do amor, simbólica e poeticamente, da “amada”.

Alguns poetas brincam com os seus desamores crônicos elegendo a morte como eterna amante, talvez como desculpa pelo “inalcansável” de seus amores, como com Augusto dos Anjos (Eu imagino que és uma princesa / morta na flor da castidade branca .../ Que teu cortejo sepulcral arranca / por tanta pompa espasmos de surpresa). Outros gênios, como Manuel Maria Barbosa du Bocage, o príncipe dos poetas portugueses, são mais sutis ao usar a morte como mote de seus sonetos “imortais”, como “A morte para os tristes é ventura.”, ou vaticinando a justa razão da morte como “A morte para o justo é recompensa”. Ou, então, por outro gênio da poesia portuguêsa, Antônio Boto, que clamava pela inconsciência do vinho ou da morte, para fugir de seus amores impossíveis e espúrios quando dizia, angustiado: “Grande vida! / Ter o vinho por amante / E a morte por companheira”.

Contudo, ninguém como Mário Quintana retratou com mais simplicidade e naturalidade a nossa vontade de viver, e a absoluta negação à morte, desejada ou “acontecida”:

“Esta vida é uma estranha hospedaria
De onde se parte quase sempre às tontas,
Pois nunca as nossas malas estão prontas
E a nossa conta nunca está em dia”.

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