- Ano III - nº 6(27) - Outubro de 2009.                                                     Direção: Osiris Costeira

A SAIDEIRA E A CONTA, POR FAVOR

Há uns dias, pouco mais de uma semana, revi um velho amigo que não nos encontrávamos há muito tempo, talvez haja mais de 30 anos, e resolvemos não desperdiçar essa oportunidade do “acaso” e decidimos sentar num bar qualquer, aqui mesmo no bairro, em Copacabana, e “botar a conversa em dia”. E assim fizemos.  

E começamos as recordações das nossas vidas naquela época e dos amigos em comum que tínhamos, e que, a maioria havia, como nós, se perdido no anonimato de suas vidas e de seus afazeres. Acostumado a ouvir no consultório os pacientes, não foi difícil ouvir o meu velho amigo que, empolgado com o encontro, deu vazão a sua retórica de bar e acabamos dando boas gargalhadas. Pedimos um choppinho e queijo provolone à milanesa, bem à moda carioca, e meu amigo engrenou de vez:

“Vou lhe dizer uma coisa, meu caro doutor, e você já deve estar habituado a esses desabafos, agora revendo as nossas vidas a gente tem a convicção de que se “perde” muito tempo numa vida imaginária, e quando vê, de repente, a vida passou 30 ou 40 anos, escorrendo, às vezes, pelos dedos das mãos como se quiséssemos segurar água, o que é impossível. E no balanço, numa contabilidade imaginária, descobrimos que poderíamos ter sido muito mais felizes, e feito outras pessoas mais felizes também.”

Surpreendido com a declaração de meu amigo, lhe perguntei: “Por quê?  Me fale, vamos conversar sobre isso.”. 

“Pois é, com todos aqueles probleminhas que eu tinha - ou supunha ter - na minha infância e adolescência com pai, mãe, avós, irmãos, tios, conhecidos e conhecidos dos conhecidos, a gente acaba criando, naquele universo, as nossas verdades. E verdades criadas por uma criança de menos de dez anos, totalmente desprovida de experiência e conhecimentos para se certificar se esses sentimentos eram verdadeiros ou se havia “verdade” no que sentíamos. E as “Verdades” foram criadas e não se discute mais, principalmente porque naquela época não se dialogava muito com as crianças, havendo, de certa forma, até um desrespeito dos adultos às crianças e ao seu mundo, e do qual eles, os adultos, não comungavam por ser de “crianças”. E crescemos independente das verdades, com aquelas “verdades”, moldando o nosso mundo com aqueles ingredientes. “Verdadeiros?” “Imaginários?”. Só a vida nos diria depois.”

 “E com isso, passamos, sem que nos apercebêssemos, a conviver ao longo da vida com fantasmas e espectros de um passado criado pela nossa imaginação, em que patrões e chefes se confundiam com a imagem de autoridade, e afetivamente polarizada, de pai e mãe, e em que colegas, companheiros de clube ou da empresa, ou amigos do condomínio eram os irmãos com os quais disputávamos, imaginariamente, o afeto de pai, mãe ou de qualquer outro que pudesse nos amar. E dessa maneira, vivemos à frente de um grande espelho em que se refletiam não os objetos reais, mas as imagens criadas e recriadas por aquela criança, emoldurada por aquelas verdades.”

“E, tudo isso sem contar com a nossa própria família constituída, aonde a mulher e os filhos nem sempre eram, ou são, a representatividade de uma realidade, pois a minha mulher é, provavelmente, a imagem virtual de alguma “verdade”, inclusive materna, e os meus meninos, quando eram crianças, provavelmente eram “vistos” como aquela criança que eu fora, e que eu procurasse não ser o que meu pai talvez fora para mim, entende?  À vezes é complicado, não é?”

Engrenado na catarse de meu amigo em um barzinho de Copacabana, e impossibilitado, obviamente, de transportar tal conversa para o consultório, arrisquei alguns comentários:

“Amigo, eu lhe entendo perfeitamente. Eu sempre digo que todos que chegam ao meu consultório só têm um diagnóstico, o desamor, e que esse desamor, transformado e visualizado em sintomas e sinais que dificultam a vida, tem sempre a mesma etiologia, as mesmas origens: medo de perder o amor em seu núcleo inicial, constituído na infância e adolescência. Quanto mais dificultoso de se exteriorizar esse amor pelos outros, pais, irmãos, tios, avós, quem quer que sejam, mais arguido ele será, na ansiedade suposta de que ele, simplesmente,  não exista. A partir desse momento, a criança “cria” as verdades com que convive imaginariamente. E às vezes para o resto de suas vidas. Como verdades verdadeiras. Reais”.

“O amor é uma energia tão poderosa para o ser humano e para tudo que representa Vida que a simples “possibilidade” de não a termos desmonta completamente o nosso equilíbrio emocional, com as consequentes repercussões físicas em nosso corpo. Por isso, querido amigo, em nosso inesperado e extremamente gratificante encontro gostaria de fazer 3 sugestões para você: “

“A primeira é quanto ao tempo perdido. Nunca perdemos tempo Apenas, quando muito, adiamos o entendimento e os porquês, e absorvemos os ensinamentos aprendidos e vivenciados. Esses, desta maneira, são muito mais e melhor digeridos, pois foram “sentidos” e não intelectualizados apenas. A visão que hoje você tem lhe faz mais forte emocionalmente, podendo, em absoluto, desconstruir o seu passado e reconstruir um presente, selecionando as muitas coisas válidas que você viveu antes, conscientemente.”

“A segunda, diz respeito ao AGORA, ao HOJE, que são os únicos momentos em que se deveria viver, e viver intensamente, saboreando gota a gota toda a sua experiência de vida, e as usando para ser FELIZ e, com isso, fazer outras pessoas felizes. Buscar a felicidade, querido amigo, creio ser a única “obrigação” do ser humano que tem no Amor a sua energia básica. Não se esqueça que o ONTEM já passou, não volta, e o AMANHÃ será exatamente o que fizermos HOJE, como um absoluto reflexo do AGORA. Portanto, vamos viver exclusivamente o HOJE para que tenhamos um AMANHÃ feliz. OK?”

“Claro, meu querido doutor. Mas qual a terceira sugestão?”

“A terceira sugestão é que tomemos a saideira para acabar o provolone. E, hoje, a despesa é minha.”

- A saideira e a conta, por favor!

 

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