- Ano I - nº 3 - Fevereiro de 2007.                                                                              Direção: Osiris Costeira

O DIA EM QUE DEUS NASCEU.

No começo tudo era o caos. A escuridão total envolvia tudo e a todos que por ventura existissem. A sensação de inexistência era absoluta e o mando do não-ser imperava sem qualquer possibilidade do ser existir. Mas havia vida, já que o próprio caos é uma forma de existência, e se conseguia divisar em um canto do escuro e do nada um aglomerado de alguma coisa que parecia corpos. Aparentemente humanos, mas enroscados uns nos outros como se se protegessem uns dos outros ou de alguma coisa além. Não se sentia de que ou de quem. Mas havia algo tenebroso no ar, um quê mal definido que recobria aquele não-ser que temia ser ou acordar. Ao se firmar mais o olhar começava-se a antever aqueles corpos “humanos” que se mexiam em movimentos disritímicos e dessincronizados, de modo lento, vagaroso, pachorrento, como quem acorda de um longo sono hibernal.

De repente, um grande urro ecoou por toda a escuridão. E o vazio tornou-se cheio e o silêncio fez-se som. Manifestava-se a vida. Primitiva e arquétipa. Mas vida. E com os seus movimentos se podia começar a delinear os contornos dos seres que até a pouco se embolavam no canto do escuro. Eram de gente. Quase como nós, começavam a bipedestar-se e a se levantar mostrando-se como inteiros. Era gente. Ou quase isso. No mesmo instante, uma imensa luz riscou o nada e o escuro mostrando a sua origem de raio e o que iluminava, a boca de uma caverna. E alguns seres de pé, virados para a luminosidade repentina naquilo que chamamos de céu, ouviram aterrorizados o grande estrondo que se seguiu aos raios. No mesmo momento, em ato reflexo, ajoelharam-se em genuflexo contrito, como que a reverenciar o grande Senhor, de tudo e de todos, capaz de iluminar repentinamente tudo em volta, inclusive as suas insuficiências vivenciais e a pequenez de sua própria existência.

Neste momento, neste exato momento, deu-se o nascimento de Deus, pelo menos do Deus daqueles seres que acordavam de infinita hibernação, Deus esse que era “mais poderoso do que eles” a ponto de ser capaz de iluminar tudo, de repente, e a rugir mais alto e mais forte do que eles.

A primeira noção de doença está intrínseca a este episódio primevo, em que tudo era decorrência desse Deus, logicamente humanizado para que lhe tivesse parecença e lhe pudesse almejar os seus atributos e poderes, para, quem sabe um dia... Desta maneira, tudo aquilo que desagradasse ao Deus seria imediatamente castigado, exatamente como "ele faria” se fosse Deus. Não só o relâmpago, o trovão, a chuva e os ventos seriam manifestações do poderio deste Deus implacável e imutável em suas sentenças. As suas próprias sensações físicas e vivenciais também seriam frutos dos desígnios deste Deus todo poderoso, “dono do céu, da terra e dos homens”. Assim, as próprias dores ou qualquer sensação diferente ao “normal” eram fruto do desejo daquele Deus, desgostoso de certa forma com alguma coisa feita – ou não feita – pelo homem. Em síntese: um castigo. Aquilo que chamaríamos, hoje, de doença. A doença tornava-se um castigo de Deus, por algo de errado cometido, e logicamente só Deus, se quisesse, o curaria. Ou melhor, perdoaria.

E o homem teve que se fingir de Deus para tratar os próprios homens, pelo menos sendo aceito como seu instrumento e fiel sectário de seus desejos e poderes. Para tratar os homens – criando a figura do xamã, do curandeiro e mais tarde a do próprio médico e terapeuta – o homem-curador assimilou a identidade do próprio Deus, não somente representando-o, mas o substituindo na sua integridade e na sua ausência aparente. Era o próprio Deus humanizado, ou homem deusificado. Um deus quase Deus. E nesse raciocínio, a doença era curada por Deus através de seus instrumentos-humanos, num absoluto ato de benevolência e de piedade, e que requereriam benesses e eterna gratidão pela graça recebida... E que Deus fosse louvado. Eternamente.

 

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