- Ano V - nº 8 (48) - Julho de 2011.                                                     Direção: Osiris Costeira

NÓS OS VELHOS, OU MELHOR, IDOSOS

Um dia desses, ao iniciar a consulta com um paciente novo, me deparei com um diálogo extremamente interessante em seu realismo, pelo menos para começo de uma psicoterapia:

“Em que posso ser útil a você, meu amigo?”, perguntei ao senhor de cabelos grisalhos, quase brancos, e olhos pequenos e úmidos que se sentou na poltrona ao lado da minha.

“O caso é simples, meu caro doutor: velhice. Eu estou velho. É, eu descobri que estou velho...”

“Não seria melhor consultar um geriatra para uma visão geral de como estão as coisas?”, retruquei meio espantado com o diagnóstico de meu novo paciente.

“Não, doutor. Até que a máquina não está das piores: uma dor aqui, outra acolá, uma hipertensãozinha tranquila controlada com remédios, às vezes cansaço por um esforço maior do que os meus hábitos, e nada mais do que isso”.

“A minha velhice tem outros sintomas que apareceram devagarzinho, foram se adonando, se alastrando, e hoje se abancaram de vez, como novos posseiros a tomar conta da terra”.

“Mas que sintomas são esses, meu Deus”, perguntei-lhe de imediato.

“Tristeza, doutor, só tristeza. E, tristeza brava e encruada, porque as pessoas não me ouvem mais, não concordam com as minhas idéias, e as com quem eu convivi não me chamam mais para participar de seus grupos e me ouvir, e, consequentemente, acho que não gostam mais de mim”.

“É tristeza, sim, doutor, porque vejo que agora não sou mais importante como achava que era, e vivo profundamente sozinho, eu e minhas recordações que, de certa forma, já odeio e me causam muito mal, e mais depressão”.

“E como é o seu dia, o seu hoje, me conte”, perguntei já profundamente curioso com aquela “depressão”.

“Não sei lhe dizer, doutor, porque não sei se tenho “hoje”. Se há é muito desagradável, muito chato, e eu não o quero viver. Vivo isto sim de recordações e de lembranças daqueles bons tempos, dos “velhos tempos”, em que eu era EU, e hoje sou o que acho que eu era, não mais eu, um outro eu, o que os outros acham, entendeu, doutor?”

“Ao longo do dia, desse dia que chamamos hoje, é uma chatice perene em que tudo me incomoda e me atrapalha, se é que eu usaria este mesmo  tempo para alguma coisa diferente e mais útil. É a faxineira ou minha mulher a quem atrapalho na limpeza ou rotinas  da casa, ou a algazarra dos meninos, meus netos, que gritam nas suas brincadeiras e que dificultam a “sacrossanta” missão de ler o jornal do dia. E sem finalidade maior ao saber das “notícias”. O senhor acha pouco, doutor?”

“E, por que resolveu mudar e vir aqui, se cansou da sua tristeza?”, era a pergunta óbvia.

“Não sei se cansei da minha tristeza, doutor. Mas, creio, me cansei do meu hoje que definitivamente não existe e, o mais importante, não é justo porque não favorece que exista um amanhã, que será, inexoravelmente, igual a esta chatice que é o meu hoje. Quero mudar, doutor. Preciso mudar. Me ajude, doutor, por favor!”

E, antes de qualquer comentário ou esquema terapêutico que pudéssemos supor para o nosso paciente, rasgos de elucubrações pairaram em nossa mente para que pudéssemos entender o que se passava com o novo paciente, e, sem dúvida alguma, com uma infinidade de pessoas que existe e que não tomamos conhecimento de suas existências. As portadoras do “diagnóstico” de idosos, ou melhor, de velhos.

Porque existe uma grande diferença entre os dois “diagnósticos”, entre velhos e idosos, principalmente quanto ao modo como vivem e vivenciam a sua idade.

Os idosos são aqueles que têm na experiência de vida, com a idade vivida, a sua grande valia e satisfação, tentando continuar a criar e a produzir, continuamente, utilizando o que aprenderam, e se possível fazendo  melhor.

Os velhos se mostram extremamente rígidos em seus conceitos e julgamentos, em que só as suas experiências e vivências são válidas e imprimem seriedade. E isto porque continuam a existir no passado, como se ele não houvesse acabado. E, não fazem nada para renová-lo, recriá-lo e o refazer com os “sabores” de agora, de hoje, e não com o ranço de ontem, do que acabou e não volta mais. 

A sensação é de que os velhos querem perpetuar o que existiu, sem se importar em fazer novamente, de modo diferente e melhor; é claro, porque o que fizeram antes é o que melhor se poderia fazer. E foi feito. Por ele.

A onipotência e a arrogância dos velhos impedem que eles melhorem e construam um novo EU, pois se negam a desconstruir um passado que já acabou. Que não existe mais.

É preciso que a cada dia, qualquer idade que considerarmos, tenhamos a capacidade e a humildade de recomeçar a nossa vida e reconstruir o nosso hoje, consequentemente o nosso EU. Este sim, absolutamente perene. Se permitirmos.

Só assim, poderemos alcançar a plenitude de sermos velhos, ou melhor, idosos. E com muito orgulho de nossa idade.

 

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