- Ano VIII - nº 2 (66) - Fevereiro /Março / Abril de 2014.                           Direção: Osiris Costeira

MEU TAXISTA PREDILETO

 

Um dia desses, já na nova cidade que me acolheu - Vitória, peguei um táxi para ir do Centro da cidade até a minha casa, na Praia do Canto, e acabei conhecendo uma grande figura, e de modo absolutamente inesperado, que ficou na minha lembrança por longo tempo: o motorista do táxi.

Assim que entrei no carro, mal havia fechado a porta, e o taxista me disse: "Muito bons dias. Aliás todos estão vendo o dia lindo que está fazendo por aqui, não é mesmo? Sem uma nuvenzinha sequer e o céu todo azul. E que azul!!!! Para onde vamos?"

Depois de orientar para onde iríamos, pensei que iria penetrar naquele "mundinho" em que ficamos numa curta viagem de taxi.

Qual nada! E o meu ilustre motorista continuou: "Estou vendo que vc - vou chamá-lo de você porque devemos ser da mesma idade, certo? - não é daqui, acertei? Deixa-me ver ... ah! já sei, é do Rio, tem todo jeitão de "cariôco". Acertei? Resolveu passear pela terra capixaba, e comer uma bela de uma moqueca, não é isso?"

Depois de responder que não era bem assim a minha estada em Vitória, o nosso motorista continuou: "Seja como for, amigo, fez uma boa escolha!" E, logo depois, quase exasperado, tentando botar a cabeça para fora da sua janela, esbravejou: "Calma, cara, não vê que o sinal fechou; pra que a buzina, assim ninguém merece ... "

E, retornando a sua posição normal ao volante, comentou: "Tem gente que realmente não sabe o que quer da vida, a não ser reclamar "direitos" - entre aspas - como se fosse o dono do mundo, como se os direitos - sem aspas - não fossem de todos. Os que gostam de uma buzina são os mais comuns aqui na rua, entende?"

E, continuando a filosofar ao volante, observou: "E não é só o pessoal da buzina que é assim, não. Tenho um vizinho, um magrela de meia idade, aparentemente gente boa, que nunca está satisfeito com nada e reclama de tudo e de todos. E eu me pergunto, às vezes, ouvindo ele falar, falar, falar sem parar, será que este cara nunca amou ou gostou de alguma coisa ou de alguém. Ou pior, será que nunca gostaram dele e ele sempre se sentiu sozinho e abandonado, e por isso reclama tanto, e de todos e de tudo,  será?"

"Uma vez peguei um passageiro que - acredite - falava mais do que eu, e conversando sobre esse mesmo assunto ele me dizia que as pessoas vivem em função de como reagem aos sentimentos, afeto ou amor, em termos de dar e receber. Uns só sabem dar, ou pensam que sabem dar, e também não sabem, realmente, receber o afeto dos outros. Que doidera, não acha?"  

E, antes que eu pudesse esboçar qualquer iniciativa de diálogo, continuou: "Isso é muito triste, seu moço, viver assim, sem amor. E não estou falando daquele "AMOR" de paixão, dessas loucuras que a gente faz por causa de mulher. Não, nada disso. Apenas gostar e ser gostado. Quer coisa melhor do mundo?!"

"Vivendo assim não há porque estar brigando o dia inteiro por causa de bobagens ridículas, como a que a gente está cansado de ver todo o dia, inclusive nós mesmos, o que é o pior. E além disso, podermos fazer exatamente o que gostamos, ou pelo menos gostarmos do que fazemos. É uma troca: faço bem feito alguma coisa e esse fazer bem feito me traz prazer. Ave Maria, que doidera boa, moço!"

E, parando no último sinal vermelho antes de entrarmos na minha rua, observou ainda: "Realmente eu não entendo umas coisas, mas também nem sei se alguém entende. Tem uns caras aí, todos "cheira céu", que se acham muito importantes naquilo que fazem só para se mostrar aos outros, e os outros também acharem que ele é realmente importante. Se são ou não, isso é detalhe. Dispensável."

"E esses caras, acho eu, confundem "achar importante com gostar", quando ouvem alguém dizer "gosto do fulano, ele tem muito valor". E vivem se pavoneando por aí a espera do próximo elogio. Acham que gostam dele. Pode?"

"Chegamos, moço. Desculpe a conversa fiada. Valeu ..."

Valeu. Obrigado pela aula de vida prática. Realmente, esse é o meu taxista predileto.

 

 

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