- Ano IV - nº 8 (36) - Julho de 2010.                                                                              Direção: Osiris Costeira

TERAPEUTAS E TERAPIAS - Osiris Costeira - osiris.costeira@uol.com.br

ROBERTO FREIRE E O ANARQUISMO DO SOMA

Joaquim Roberto Correa Freire, ou simplesmente Roberto Freire, médico psiquiatra, terapeuta, literato, jornalista e teatrólogo foi o criador da Somaterapia, terapia corporal e em grupo, criada no começo da década de 70 do século passado.

Nascido em São Paulo no dia 18 de Janeiro de 1927. graduado em medicina pela antiga Universidade do Brasil (UFRJ), no Rio de Janeiro em 1952, foi trabalhar no ano seguinte de sua formatura no Collège de France, em Paris, desenvolvendo trabalhos de Endocrinologia Experimental, sob a direção do Professor Robert Courrier.

De volta ao Brasil, inicia sua formação em Psicanálise, através da Sociedade Brasileira de Psicanálise/São Paulo, com o Professor Henrique Schlomann, realizando trabalhos de acompanhamento clínico no Centro Psiquiátrico Franco da Rocha/São Paulo, em 1956.

A partir desse período, Roberto Freire busca novas fontes de pesquisa, realizando estágios no exterior, principalmente em Bioenergética, com os discípulos de Wilhelm Reich, em Paris, e em Gestalterapia, com os discípulos de Frederich Peris, em Bourdeaux.

Suas divergências teóricas e ideológicas se ampliam, acabando se distanciando da Psicanálise, ao mesmo tempo em que se aproxima, cada vez mais, dos campos artístico, literário e político brasileiros, e da ideologia do Anarquismo.

A partir de 1968, com a instauração do regime militar ditatorial no Brasil em 1964, Roberto Freire atendeu inúmeros militantes clandestinos com desequilíbrios emocionais e psicológicos provenientes da repressão autoritária da ditadura instalada.

Baseada nos princípios da escola de Reich, do gestaltismo, e emoldurada filosoficamente pelo Anarquismo, Roberto Freire dá unicio à Somaterapia, ou SOMA, como ele chamava, inicialmente oriunda de pesquisas no Centro de Estudos Macunaima, com as contribuições de Miriam Muniz e Sylvio Zilber.

A Somaterapia é uma terapia corporal e em grupo que considera a neurose fruto das organizações sociais autoritárias. Numa sociedade onde a liberdade de ser é impedida através de mecanismos repressores presentes na família tradicional burguesa, na pedagogia escolar autoritária e nas religiões castradoras, a neurose surge como um processo de ajustamento dos indivíduos. 

Além de ser um fenômeno social, que se forma de fora para dentro, os seguidores da terapia acreditam que a neurose se instala em todo o corpo das pessoas, impedindo, sobretudo, a expressão livre da espontaneidade, da afetividade e da sexualidade.

Assim, a SOMA é uma terapia corporal, utilizando-se de exercícios próprios que, além de agirem sobre a couraça neuromuscular do caráter (tensões crônicas da musculatura voluntária, que retém a neurose no corpo das pessoas), também informam como a repressão atua no cotidiano.

A Somaterapia funciona em grupos (em torno de 20 pessoas) e com duração de um a um ano e meio, evitando assim a formação de dependência terapeuta-paciente. Nesse período os grupos fazem três viagens para vivências em campo, onde há um crescimento nas dinâmicas dos grupos por uma maior percepção individual, seja no contato com outros grupos, seja no contato direto com a natureza, com exercícios em locais que ainda preservam ecossistemas com pouca interferência humana tecnológica, como Visconde de Mauá-RJ (grupos Sul/Sudeste) e Lençois-Ba (grupos Nordeste). 

Adotando a ideologia anarquista, a Somaterapia se propõe a facilitar a busca da liberdade a nível pessoal e social. O Socialismo Libertário proposto pelo Anarquismo torna objetiva a luta contra qualquer forma de autoritarismo, permitindo o surgimento da originalidade única das pessoas.

O Anarquismo é uma ideologia que se opõe ao capitalismo burguês, supostamente uma das principais fontes de manutenção da dominação, do autoritarismo e das injustiças sociais. Na Somaterapia esses mecanismos de poder são discutidos e combatidos gerando uma dinâmica autogestiva, onde o que se busca são relações sinceras e solidárias.

Além de intensa atividade cultural junto ao teatro, música, televisão, jornal, e como assessor do Professor Paulo Freire, no Plano Nacional de Alfabetização de Adultos, Roberto Freire trabalhou também em funções administrativas, como presidente da Associação Paulista da Classe Teatral, diretor do Serviço Nacional de Teatro e diretor artístico do TUCA (Teatro da Universidade Católica de São Paulo).

Faleceu numa sexta-feira, 23 de Maio de 2008, sendo o seu corpo cremado na Vila Alpina, em São Paulo.

Assista a entrevista com Roberto Freire no site assinalado abaixo, para que se entenda o real alcance de sua personalidade, e, sobretudo, o Anarquismo de suas concepções terapêuticas, sociológicas, antropológicas, além dos aspectos políticos.

 

 

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