- Ano I - nº 7 - Junho de 2007.                                                                              Direção: Osiris Costeira

HISTÓRIAS DE TERAPEUTAS - Manuela Dumans Costeira

Terapias Holísticas na Mesopotâmia?*

Magia e medicina andavam juntas na Babilônia do III milênio antes de nossa era. Razão e irracionalidade conviviam pacificamente e se complementavam num sistema em que médicos receitavam amuletos protetores, ao mesmo tempo em que prescreviam remédios extraídos de todos os elementos da natureza. Documentos encontrados provam que há 4.000 anos, na região da Mesopotâmia, já havia a preocupação em registrar diagnósticos e prognósticos médicos, no intuito de acompanhar os “sinais e sintomas” do “mal” para se chegar a uma conclusão de sua natureza e evolução. Tais diagnósticos poderiam acusar “febre” ou “hidropisia”, como também “intervenção de tal deus”, de “tal demônio”.

A resposta que os babilônicos encontraram para explicar a origem do “mal do sofrimento” está nos mitos. Uma mitologia composta por deuses poderosos que puniam a desobediência às suas leis com males e infelicidade; além dos demônios, seres inferiores que se aproveitavam dos homens desprotegidos de seus deuses para aportar o mal. Daí a necessidade de haver duas terapêuticas complementares: uma baseada na medicina empírica, em que o médico (chamado de asû) diagnostica e prescreve o tratamento do doente, além de preparar, ele mesmo, o seu medicamento; e outra, a “medicina dos magos” em que um exorcista era chamado para repelir os “demônios” através de um cerimonial auto-eficaz de invocação da proteção dos deuses.

Em uma carta escrita no ano 670 a.C ao rei assírio Asaraddon por seu médico Urad-Nanâ podemos ter uma idéia do papel do terapeuta empírico nesta civilização:

“Boa saúde! Excelente saúde para o Rei, meu Senhor! E que os deuses da saúde, Nin-urta e Gula, Vos concedam o bem-estar do coração e do corpo! Vossa majestade pergunta-me insistentemente o motivo pelo qual ainda não fiz o diagnóstico da doença que Vos faz sofrer e por que motivo ainda não preparei os remédios para cura. É verdade que, falado anteriormente com o rei, eu tinha confessado a minha incapacidade em identificar a natureza do mal que o aflige. Mas, neste momento, para que tomeis conhecimento por escrito, envio-vos esta carta selada. E, sendo da vontade de Vossa Majestade, poder-se-á recorrer à Aríspice (oráculo). O Rei deverá, portanto, utilizar a seguinte loção: depois da sua utilização, a febre que vos aflige desaparecerá. Já havia preparado duas ou três vezes este remédio, à base de óleo: o Rei reconhecê-lo-á, sem dúvida. O Rei deverá então transpirar, motivo pelo qual, numa embalagem à parte, envio juntamente os seguintes porta-amuletos: O Rei guardá-los-á junto ao pescoço. Envio também um ungüento com o qual o Rei poderá friccionar-se, em caso de crise”.

Faz-se interessante notar que Urad-Nanâ, certo de seu diagnóstico, aconselha o Rei a procurar um oráculo, caso deseje confirmar a sua sentença. Tal técnica, da “adivinhação dedutiva” era considerada “científica” e infalível. Quanto à indicação do amuleto, podemos pensar que ele comporta-se como alguns dos nossos clínicos de hoje: tão devoto quanto o doente, além da receita podem, da mesma forma, aconselhar uma medalha milagrosa.

Caso tal tratamento não funcionasse e os sintomas do doente persistissem, fazia-se necessário chamar o exorcista para que outro procedimento fosse tomado. Neste caso, o “mago” teria a única função de implorar a ajuda dos deuses através de rituais e cerimônias pré-estabelecidos, em que apenas os deuses agiam significativamente.

Em seu tratamento, o exorcista representava os deuses Éa e Marduk. Seu objetivo era fazer com que a doença deixasse o corpo doente e fosse transferida, muitas das vezes, a animais selvagens. Vejamos um exemplo: Sete pães de farinha grosseira deveriam ser atados com um fio de bronze. Estes deveriam ser esfregados no doente que, por sua vez, deveria cuspir nas migalhas que caíssem, pronunciando uma série de palavras sagradas. Após ser levado a um local isolado, de preferência junto a uma acácia selvagem, a doença, através das migalhas caídas, deveria ser confiada a Nin-edinna (deusa deste local), para que Nin-Kilim, o deus padroeiro dos roedores selvagens fizesse passar por eles a doença, alimentando-os com tais restos comestíveis. Em seguida, em forma de invocação terminal, os deuses eram mais uma vez chamados para finalizar o trabalho e, enfim, trazer a cura ao moribundo.

Podemos notar a diferença entre as duas terapêuticas: na medicina empírica era o médico-asû quem operava o tratamento: além de preparar o medicamento, era ele em pessoa quem examinava o doente e escolhia a terapêutica adequada. O exorcista, por sua vez, não tinha tal autonomia, servindo apenas de ligação entre os deuses e o doente. Mesmo assim, ambas as técnicas se complementavam e tinham os seus espaços, o que nos leva a pensar em terapia ou medicina holísticas numa época tão remota... Será?

Pensamos que sim. A colaboração de médicos, terapeutas, magos, exorcistas e quem mais quisesse aparecer mostra, desde os primórdios da civilização, que a terapia ou medicina holística se fazia presente na Babilônia. Lá, podemos perceber mais uma vez aquilo que deve ser o verdadeiro objetivo de qualquer terapêutica: a saúde do doente - ontem, hoje e sempre.


*O presente artigo foi realizado através da leitura do livro “As doenças têm história”, e baseado no capítulo “Magia e medicina reinam na Babilônia”. BOTTÉRO, Jean – Magia e medicina reinam na Babilônia. In “As doenças têm história”. Editora Terramar, Lisboa, Portugal, 1997.

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