- Ano XI - nº 3 (79) - Agosto / Novembro de 2017.                                        Direção: Osiris Costeira

PSICOSSOMÁTICA - Iára Vieira - iarasovieira@gmail.com

CAMINHOS DA PSICOSSOMÁTICA

 

Encerraremos nosso ano de 2017 falando sobre a psicossomática, sua origem, seu campo de atuação pois recebi alguns emails perguntando sobre “mas afinal, o que é psicossomática? Para que serve?”  Tenho um hábito, aprendido há muitos anos, através de alguns professores dos quais muito me orgulho e me serviram de espelho até hoje. “Para algum assunto ser compreendido é necessário algum acompanhamento ao longo da história

Achei interessante, pois falaremos muito sobre psicossomática ao longo do  próximo ano.

Construí meu caminho profissional tendo como base as teorias de três personalidades  muito importantes para a humanização da medicina e que deixaram as bases para a construção das muitas terapias holísticas que utilizamos, eles foram:

HIPÓCRATES (460 - 377 a. C.), um divisor da história da medicina, seus métodos de investigação das enfermidades promoveram um "corte" que irrompe na história do pensamento. Estabeleceu-se um conhecimento científico do homem, a verdadeira medicina científica.  Hipócrates publicou uma obra intitulada CORPUS, que revolucionou o método em medicina.  Nesta obra ele apresenta a physis (natureza) como o "médico das enfermidades", refere-se à uma força presente em todos nós que chamou de "vis medicatrix naturae" (forças curativas da natureza), defendia as medidas curativas vindas da natureza.  Numa outra publicação chamada "Das epidemias", ele descreve esta força como uma instância que operava em todos os seres como "servidora", favorecendo os indivíduos enfermos, as eliminações, as substituições doentes, a recuperação e a regeneração das lesões.  A Medicina Hipocrática defendia que o médico deveria limitar-se a agir como um "servidor da natureza", um facilitador com três funções básicas:

        a) favorecer ou, ao menos, não prejudicar;

        b) abster-se do que considerava impossível, "não atuar quando a enfermidade parece ser inexoravelmente mortal";

        c) atacar a raiz da enfermidade, "contra a causa e contra o princípio da causa".

        Hipócrates deu à medicina, noções básicas de intervenções terapêuticas e a idéia de individualização do tratamento, não era oportuna a intervenção terapêutica sem considerar a totalidade, já que é exatamente este "todo" o principal fator de eficácia da dinâmica terapêutica. No "Tratado das Doenças Sagradas" dizia que a alma localizava-se no cérebro.

PARACELSO (1493-1541) defendia a existência de um agente anterior divino que atribuía e mantinha a vida.  Teorizou sobre os espíritos dos diversos reinos, animal (Archeus), mineral e vegetal, seus  nomes e regentes específicos e a "transformação do espírito universal" ou a essência de todas as coisas.

SAMUEL HAHNEMANN (1755-1843), fundador da Homeopatia, defendia "uma força imaterial que altera o estado de saúde do homem".

Além desses, destacaria  PHILIPPE PINEL (1745-1826), considerado o pai da psiquiatria moderna, mas o seu maior atributo foi o de “humanizador” desta área médica ao direcionar sua atenção para a necessidade de particularizar a história individual do enfermo.

A Medicina Psicossomática mostra um processo dinâmico mente-corpo.  O movimento Psicossomático estabeleceu o modelo neo-hipocrático  trazendo a idéia do todo, do conceito de unidade  biopsicossocial através da medicina humanística e integral com o discurso médico-assistencial.  Não seria possível a intervenção terapêutica sem considerar a totalidade, pois, é esse "todo", o principal fator de eficácia da dinâmica terapêutica.  A noção de individualização do tratamento, trazida por Philippe Pinel, e a noção de atacar a enfermidade pela raiz, contra a causa e o princípio da causa, é a base da Psicossomática, pois é no corpo que se inscrevem as imagens da consciência, se esta se desequilibra faz-se presente, visível e palpável sob a forma de um determinado sintoma. 

Hipócrates defendia que as medidas curativas vinham da natureza, as vias naturais de cura, a energia curativa, os mecanismos de cura que nos são próprios, presentes em nosso corpo e  acessados pelo organismo para se restabelecer.  Esse é o principal agente de qualquer cura, tudo o que se tem a fazer é facilitar, removendo ou diminuindo empecilhos para sua atuação, para a ação do seu fluxo adequado.

Os avanços modernos vão ao encontro de se identificar a causa das doenças, de classificá-las, de coletar e agrupar dados estatísticos e quantidade de casos locais, grupos sociais, tendo o cuidado de não forçar o pensar a doença como uma entidade concreta, com vida própria, com autonomia.

A doença é um construto, é algo construído ao longo do tempo, da mesma forma como é discutido e construído o conceito de causa das doenças, não se discute a doença sem relacioná-la à uma causa.

É nessa tentativa de classificar, estudar, agrupar a dor e o sofrimento físico que, às vezes, são esquecidos a dor e o sofrimento emocionais que acompanham as doenças; estes sintomas são menos importantes que os físicos?  Como aliviar estes sofrimentos?

A ânsia de descobertas, faz crescer um abismo entre paciente e médico pois um percebe e diagnostica e o outro sente, sofre, vivencia a doença; neste momento,  a doença assume o papel principal e o doente, um coadjuvante, parece duas entidades distintas, o paciente e a doença.  O médico deve ter o preparo e a sensibilidade para não deixar que isto aconteça. 

Não há um processo envolvendo a cura efetiva enquanto o médico não deixar de ser um técnico e passar a entender doença e doente como uma só instância e assumir um papel fundamental para que desperte no  paciente a  confiança e constitua  a aliança  terapêutica necessária que encoraja a  confiança que auxilia no trabalho.   

De nada serve todo o avanço tecnológico, pesquisas, recursos se a relação  médico-paciente não for boa.

A Medicina Psicossomática agrega, soma, integra, entende que o ser humano nasceu para ser feliz e equilibrado e este equilíbrio advém do "perfeito" convívio consigo mesmo, com sua saúde e com o meio em que vive.

Saúde, segundo a definição da Organização Mundial da Saúde, é o "estado de completo bem estar físico, psicológico e social e não apenas a ausência de doenças".  Não podemos pensar em saúde apenas em contraposição à doença.  Os processos biológicos, mentais ou físicos falam da interação mente-corpo e das modificações estruturais que acompanham a doença.

A saúde vem da honestidade do homem consigo mesmo, - "conhece-te a ti mesmo"; saber quais os papéis que o homem ocupa em todos os segmentos sociais aos quais pertence.

Estes questionamentos se tornaram possíveis, pois, sob o ponto de vista da história do pensamento científico, surge Freud postulando o determinismo absoluto dos processos psicológicos estabelecendo o princípio dinâmico fundamental da causalidade psicológica, demonstrando, pela primeira vez, a origem dos processos psicopatológicos.

Freud foi o ponto de partida para a pesquisa da personalidade adquirir o status de ciência com o nome de Psicanálise; consistindo do estudo detalhado e preciso do desenvolvimento e das funções da personalidade.

Freud trouxe os conceitos de Id  (representa os processos primitivos do pensamento e as características atribuídas ao sistema inconsciente. É regido pelo princípio do prazer e apresenta origem orgânica/hereditária, estando ligado ao impulso sexual. Se apresenta na forma de instintos que impulsionam o organismo, estando relacionado a todos os impulsos não civilizados, de tipo animal. Seria a voz que diria em nossa cabeça “Se está com vontade, vá e faça”. É o “querer” sem censuras, sem limites), Ego  (origem do seu próprio significado originado do latim, “eu”. O ego atua de acordo com o princípio da realidade, estabelecendo o equilíbrio entre as reivindicações do id e as exigências do superego com relação ao mundo externo. O ego localiza-se na zona consciente da mente. Enquanto o id e o superego são as vozes antagônicas, o ego é o responsável pela tomada de decisão) e Superego (é a parte que reage ao id, representando os pensamentos morais e éticos civilizados. Origina-se do complexo de Édipo, a partir da internalização das proibições, dos limites e da autoridade. O superego é o nosso indicativo interno das normas e valores sociais que foram transmitidos pelos pais através do sistema de castigo e recompensas impostos à criança. O superego seria a voz que diria “não faça isso, pois não é certo”. É o “dever”) .

Através destes conceitos, Freud mostrou que as reações humanas normais ou patológicas guardam relação de sentido e podem ser sempre compreendidas através dos fenômenos mentais como consequência da ação de forças instintivas. É na mediação entre  Id  e Superego, na transformação entre aquilo que quero e aquilo que posso é que o Ego e todos os elementos comprometidos nesta transformação se fazem presentes, bem como todos os enigmas existentes naquele ponto tênue “onde o corpo encontra a mente". 

Freud introduziu, também, os conceitos de inconsciente dinâmico - nossa vida mental é regida por processos inconscientes e emoções profundas que influenciam nossas atitudes trazendo a compreensão dos sonhos, lapsos de memória e a gênese de muitos sintomas corporais -.  Conceitos como princípio do prazer, relacionado ao processo primário (infância) e o princípio da realidade, relacionado com o processo secundário (mente adulta) paralelo ao desenvolvimento do ego.

A Psicanálise demonstra que os fenômenos humanos têm sempre motivações compreendidas de modo superficial, através da lógica comum e, mais profunda, pela lógica simbólica; em todas as ações humanas há uma intencionalidade, nada acontecendo por acaso.  

Conceitos reestruturados por psicanalistas que seguiram Freud nos trouxeram, também, novas concepções e estudos que propiciaram um entendimento acerca dos processos psicodinâmicos que acompanham os fenômenos somáticos e a compreensão desta linguagem rica em simbolismo que se inscreve no corpo físico.  

Atribui-se aos psicanalistas, mais do à psicanálise, preciosas contribuições ao surgimento da Psicossomática no século XX, ao colocarem a necessidade de uma nova área de conhecimento que se situasse entre o corpo e a mente e nos espaços intermediários das relações interpessoais. 

A Psicanálise não se prende na explicação de causas, mas de processos que levaram até a doença, trás contribuições quanto à capacidade de adoecer e gerar saúde. 

A criação subjetiva da mente determina o lugar ao qual o corpo deverá se adaptar; esta realidade criada pela mente e como ambas se articulam para as produções individualizadas de construção ou destruição é o objeto do estudo da psicanálise que não se prende à origem ou causa das doenças.

Sem dúvida, novos psicanalistas trouxeram preciosas contribuições "ao saber médico" e à própria psicanálise, o "saber ouvir"  que é fundamental aos médicos que têm a sua prática ligada aos sofrimentos orgânicos, pois nem tudo é só interpretação e análise mas também reconstrução da memória, do ego, das funções mentais, das relações do passado e transmuta-as para o presente modificadas e compreendidas pelo psiquismo.  O entendimento harmônico entre Tanatos (pulsão de morte) e Libido (pulsão de vida).


 

 

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