- Ano III - nº 2(23) - Março/Abril de 2009.                                                     Direção: Osiris Costeira

SEXUALIDADE - Jussara Hadadd.

Sexo, Ética e Família.

Sexo não é assunto pra qualquer um nem pra ser falado em qualquer lugar, e em família, então, nem pensar... Este é um assunto que “dá pano pra manga”, que polemiza e, por mais unida que seja a família, tudo se descontextualiza diante de tanta complexidade.

Sexo é coisa que se resolve entre quatro paredes ou fora de casa. Sexo é coisa de gente grande ou, então, coisa de homens, mas bem longe de casa. Sexo é sujo, é pecaminoso e tem o poder de dizimar famílias e lares perfeitos. Sexo é coisa de malandros, maus caráter e prostitutas. Aqui em casa não fazemos sexo. Procriamos em nome Deus. Ouve-se dizer por aí.

_ Pai, o que é ejaculação precoce?

_ Que é isso menino, olha o respeito! Falar dessas coisas aqui em casa, na frente da família?

Ou então:

_ Mãe, é verdade que o clitóris é um órgão? Onde fica? É verdade que nos dá prazer tocá-lo? Então é isso que sinto...

_ Filha para, pelo amor de Deus não continua... Não sei como conversar com você sobre este assunto, vou te levar a um psicólogo e ele te esclarecerá, e enquanto esse dia não chega, por favor, poderíamos falar de outras coisas? Quer sair e comprar um sapato novo?

Inerente a conversas desse calibre está o fato de o homem não conseguir administrar bem sua necessidade de sexo e de prazer. Em um contexto global, podemos afirmar que o que poderia muito bem passar em branco, imperceptivelmente, assim como nossas necessidades de defecar e urinar, aparece em nossas vidas como uma questão premente e que não quer calar. É como um doce que a criança quer pegar e a mãe não permite. Fica tentador, irresistível, tem que se provar a qualquer custo. Vem daí, talvez, toda rebeldia e afrontamento diante de um tema que poderia e deveria ser tratado com naturalidade, o que, certamente, diminuiria bastante a ênfase frenética que a ele se dá.

Analisando os mini diálogos acima, e normalmente são mesmo mini diálogos a cerca do sexo em família, podemos quase afirmar que muitos homens não sofreriam de ejaculação precoce se quando meninos tivessem recebido o mínimo esclarecimento através de seus pais. Mesmo que o problema existisse, seria passível de cuidado e melhora, se o homem que o vive tivesse a coragem de levar o assunto para um médico, por exemplo. Quantas mulheres ingênuas são obrigadas no mundo todo a conviverem com parceiros desse time, a principio, por falta de conhecimento, achando que assim é o normal ou então, em uma segunda hipótese, terem que se submeter por serem dependentes de alguma forma.

Quantas mulheres no mundo perdem o homem que amam ou se perdem na sua capacidade de sentir prazer, por serem julgadas frigidas, ou inexperientes demais, ou “pudicas” demais, simplesmente porque suas mães por inexperiência também, ou por falsos pudores, a privou de tais conhecimentos?

Ora, se sexo constitui uma necessidade básica e o mundo inteiro hoje já sabe disso, muito embora ainda não se admita cem por cento, o que impede que comecemos a tratá-lo com o devido respeito, de maneira ética e moral, sem especulações e sem preconceitos ou prejuízos? O que nos impede de fazer dele nosso aliado na dose essencial de ganho de força para uma vida transmutada em energia da melhor qualidade? O que nos proíbe de tirar dele o que tem de melhor trazendo-o para o campo da luz onde tentamos, sempre e quase inutilmente, através de técnicas e filosofias de todo tipo, alcançar a plenitude e a equanimidade tão falada nos tempos de hoje? Sabiam que de onde o mundo ocidental extrai toda informação a cerca da qualidade de vida e que está no oriente, o sexo é respeitado e concebido como grande manancial de propriedades conservadoras de nossa energia vital? Sabiam... Ah, sabiam, mas é mais forte que toda concepção mundana ocidental  poder aceitar tal fato, não é mesmo?

Ah, mas e o Cristo que habita em mim? Como vou explicar à minha religião que sexo para mim é bom. Ou, como poderei, em uma atitude autônoma, segura e feliz, não ter que explicar nada a ninguém. Como acreditar, depois de todos os conceitos plantados em minha infância, que posso ter uma vida adulta decidida e aceita por mim?

Cristo veio para nos salvar e não para nos enclausurar em um entorpecimento axiológico sem nenhuma fundamentação lógica engendrada somente para beneficiar senhores de um sistema patriarcal instalado por um descuido das deusas dos primórdios que reflete até os dias de hoje na humanidade. E reflete mal. Em outras palavras e de forma menos complicada, Cristo não veio para dizer, por exemplo, que Deus, seu pai, colocou na mulher um órgão destinado exclusivamente ao prazer, o qual ela não poderia usar sob pena de receber os piores castigos. Não consigo enxergar um Jesus Cristo, filósofo maravilhoso, capaz de criar tamanha confusão.

A verdade é que temos uma representação de mundo e cada um de nós tem a terrível capacidade de entender uma mensagem da forma como lhe convém. Esta é uma hipótese e pode ser bom acreditar nela.

Sendo assim, é bom pensar que o que constitui a ética, a moral e os conceitos de família, pode significar a morte existencial de algumas pessoas. Há de se tomar cuidado, as famílias em especial, ao esquivarem-se de suas obrigações no que tange ao esclarecimento sobre questões sexuais para os seus aprendizes.

A ignorância é uma arma muito perigosa e não deve ser deixada nas  mãos das crianças e dos jovens. Por puro desespero, em situações de conflito, seu disparo pode ser mortal. A ignorância gera uma insatisfação nociva e capaz de desvirtuar o que poderia ser exemplo de virtude. Só o conhecimento, primeiro sobre o próprio ser e depois sobre as questões básicas do mundo e da vida, pode fazer com que muitas vidas vivam com menor agonia, conflito e angústia.  

Uma observação sobre a ética neste caso citando José Antonio Marina – Quebra Cabeça da Sexualidade, Ed. Guarda Chuva, RJ – 2008. Reflitam.

...Os movimentos ortodoxos voltam a uma moral sexual estreita, patriarcal e antifeminista, e o mais surpreendente é que muitas mulheres se sentem atraídas e protegidas por tal proposta... Não parece, pois, que, o oceano da sexualidade esteja tão tranquilo como dizem.

Mas esse fenômeno de desassossego era previsível. A moral sexual tinha-se tornado opressiva e sem sentido, sem dúvida, mas não podemos esquecer que, em sua origem, toda moral tem uma função utilitária. Tentar resolver problemas sociais, tornar o comportamento previsível, propor modelos de vida, dar segurança, ainda que, às vezes, a troco de injustiças. ... A moral também pode ser usada como arma de dominação. Mas a verdade é que todas as sociedades construíram morais para facilitar o acesso à felicidade, e, ao prescindir delas, ao buscar uma liberdade desvinculada, sem normas nem coações, encontramo-nos de repente em um mundo complexo, sem mapas, sem instruções, sem modelos, sem caminhos nem nada.

Acredito que a ética é a inteligência aplicada para resolver os problemas que afetam a felicidade privada e pública. Acredito que a sexualidade e seus derivados continuam produzindo muitas desgraças. Cada vez ouve-se mais forte uma voz coletiva que se pergunta: “Porque a convivência é tão difícil?” Eu gostaria de saber se é necessária e possível uma ética, não do controle, mas da liberação sexual. Não se trata, pois, de pesquisar se o regresso é possível, mas, ao contrario, se o progresso é possível. Se for possível prolongar a utopia esperta com um uma utopia da criação, que a inclua e supere.

Agradeço e reverencio a todos vocês pelo carinho e paciência na leitura das minhas palavras.

Carinhosamente.

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