- Ano V - nº 2(42) - Janeiro de 2011.                                                     Direção: Osiris Costeira

TERAPIA EM VÍDEO - Osiris Costeira. - osiris.costeira@uol.com.br

Hollywood deve um OSCAR a alguém

 

Nos últimos anos da década de 60, ainda acadêmico de Medicina da Faculdade de Ciências Médicas, do Rio de Janeiro, estagiei em vários hospitais psiquiátricos iniciando a minha formação profissional e na qual me especializaria ao longo da carreira de médico.

Dos hospitais em que trabalhei o Pronto Socorro Psiquiátrico do Hospital Pinel (logo depois de sua inauguração) e o Centro Psiquiátrico Pedro II, de Engenho de Dentro, foram muito importantes na minha formação psiquiátrica.

Destes, o CPPII, como o chamávamos, reveste-se de grandes recordações não só médico-profissionais, mas, fundamentalmente, emocionais em face do primeiro contato com o paciente alienado, notadamente no Pavilhão Médico- Cirúrgico e no Gustavo Riedel, e por conhecer – ter a honra – a grande psiquiatra brasileira Nise da Silveira (1905/1999), honra e glória da psiquiatria brasileira.

O seu Museu de Imagem do Inconsciente era uma pequena sala, no andar térreo, que dava para o vão central comum aos demais pavilhões, e possuía janelas basculantes nas quais eu sempre parava, ao me dirigir para o trabalho, e ficava muito tempo olhando, com um olhar esticado e absorto para as diversas telas que eram pintadas e as diferentes argilas que eram moldadas pelos pacientes.

Ao lado, a Dra. Nise, baixinha, de jaleco branco até os joelhos, passeando entre as telas e as argilas incentivando os grandes “artistas” que expunham tranquila e prazerosamente, todo o seu inconsciente emocional através da arte.  Um oásis no meio de um imenso deserto de realidade e de vida exterior, cheio de terapias “entranhas” como insulina, cardiazol, eletro-choque e as impregnações com os primeiros neurolépticos da farmacologia psiquiátrica que começava a nascer.

Praticamente foi através dos basculantes da sala da Dra. Nise da Silveira, consubstanciado, absorvido e metabolizado mais tarde através de longo processo analítico, que uma visão ampla e global das possibilidades terapêuticas da Psiquiatria passou a existir na minha formação profissional. Formação profissional esta em que o paciente – o indivíduo – é muito mais importante do que a “doença”; esta, mera demonstração sintomática de todo o seu desequilíbrio interno com o exterior.

Todas essas lembranças foram desenvolvidas ao ver um vídeo excepcional aonde a relação interno-externo do ser humano são exibidas com uma clareza absoluta, em que a arte – a música em especial – foi capaz de penetrar no mundo de um autista e trazê-lo à realidade, à nossa realidade, por algum tempo, o tempo necessário para que a música produzisse o seu efeito. Terminada a música, terminado o relacionamento.      

O vídeo é uma cena antológica do filme AMARGO PESADELO, dirigido por John Booman, em 1972, em um intervalo de gravação, quando foi filmada uma das cenas mais espontâneas e incríveis já vistas.

Segundo texto distribuído pela divulgadora, o filme estava sendo rodado no interior dos Estados Unidos. O diretor fez a locação de um posto de gasolina nos confins do mundo, onde aconteceria uma cena entre vários atores contracenando com o proprietário do posto onde ele também morava com sua mulher e o filho (este era autista e nunca saía do terreno da casa).


Num dos cortes para refazer a cena do abastecimento, um dos atores, que sendo músico sempre andava acompanhado do seu instrumento de cordas, aproveitando o intervalo da gravação e já tendo percebido a presença de um garoto que dedilhava um banjo na varanda da casa, aproximou-se e começou a repetir a sequência musical que ele desenvolvia.

Como houve uma “resposta musical" por parte do garoto, o diretor captou a importância da cena e mandou filmar. O restante vocês verão no vídeo.

Atentem, apenas, para alguns detalhes:
                    - O garoto é verdadeiramente um autista;
                    - Ele não estava nos planos do filme;
                    - A alegria do pai curtindo o duelo dos banjos... dançando;
                    - A felicidade da mãe captada numa janela da casa;
                    - A reação autêntica de um autista quando o ator-músico quer cumprimentá-lo
                    - Este diretor merecia um Oscar.

                             - Hollywood deve um Oscar a alguém

    

 

CONTATO

fale conosco, tire suas dúvidas, fale com os terapeutas, opine sobre os artigos e dê sua sugestão de conteúdo.

BIBLIOTECA/LINKOTECA SELECIONADA

Nosso objetivo é formar um banco de referências bibliográficas das diferentes Terapias Holísticas, para consulta de todos os interessados em mais detalhes sobre determinado assunto. Seria muito importante, e verdadeiramente interativo, se recebessemos sugestões , objetivando uma das finalidades do site Terapia de Caminhos que é compartilhar experiências e conhecimento. Clique aqui para acessar a terapia que deseja uma bibliografia selecionada para consultas.

"As opiniões emitidas nos textos do site são de exclusiva responsabilidade de seus autores".