- Ano IV - nº 5(33) - Abril de 2010.                                                                     Direção: Osiris Costeira

YOGA - Sri Ananda Deha - anandadeha@gmail.com

YOGA E ECOLOGIA: CIÊNCIAS IRMÂS? 

Espiritualidade Socialmente Engajada - Parte III (Final)

Saudações amorosas a todos os leitores!!!

Finalizando nossa discussão sobre Espiritualidade Socialmente Engajada (artigos de Nov. 2007; Out. 2009; Fev. 2010 e Mar. 2010), trago a visão do Yoga novamente, só que agora através dos Valores Universais proferidos por Sri Krishna ao Discípulo Arjuna no Capítulo XIII do Bhagavad Gita.

O objetivo deste artigo é mostrar o quão importante são os valores universais para o ser humano e para a questão ambiental, os quais são os dois grandes temas desta nossa discussão. Este artigo foi inspirado e baseado em palestras proferidas por Swami Dayananda, o qual se baseou em cinco versos do Capítulo XIII do Bhagavad Gita (Escrituras sagradas da Índia datadas de mais ou menos 2000 anos aC). Neste capítulo são ensinados os vinte valores essenciais para preparar a mente do buscador para o conhecimento do Ser ou Autoconhecimento. Mesmo que alguns indivíduos não estejam interessados em autoconhecimento (pois não é o objetivo da Ciência tradicional como um todo, o que é uma pena!), acredito que a prática dos valores que serão apresentados aqui é de extrema importância para a busca da sustentabilidade e, principalmente, para o entendimento da relação filosófica entre o Homem/Mulher e o Ambiente. 

Acredito, ainda, que o ensinamento desses valores e, principalmente, o autoconhecimento devam ficar a cargo da educação, em todos os seus níveis. E, além disso, deveria estar presente em todas as relações educador/educando, seja em áreas formais ou em áreas não-formais de ensino.

Este artigo defende a idéia de que somente colocando em prática esses valores é que conseguiremos dar uma guinada radical no rumo da humanidade. Mas para isso, devemos reconhecer a importância dos valores e somente então será possível colocá-los em prática na nossa vida. Portanto, devemos examinar os ganhos e as perdas envolvidos na prática de um valor em nossa vida, e isto requer um entendimento mais profundo do propósito da vida. Devemos examinar nossa maneira de pensar atual, examinar o critério que empregamos na avaliação da importância de um valor.

Todos nós seguimos alguns valores, sabendo ou não. Estes valores não são somente necessários para o buscador espiritual, como ensinado nas escrituras antigas da Índia, mas para qualquer um que queira ser feliz. Eles têm aplicação na vida diária, e abrir mão deles, devido à falta de compreensão, custa-nos a felicidade e o equilíbrio ambiental que estamos buscando.

O estudo dos valores remete-nos não a um rol de valores artificiais, mas a nós mesmos. Uma pergunta que aparece é: qual o valor que um valor possui para mim mesmo? Um valor só é um valor se ele é de valor para mim. Estas questões nos levam a pensar sobre nossos atos e palavras, ou seja, sobre nós mesmos.

Um valor só é um valor quando valorizado por mim. De outra maneira, ele é somente uma concessão que faço ao outro, ao valor de outra pessoa. O que em nada me ajuda. Não podemos abandonar completamente os valores vivendo em sociedade. Sei exatamente o que eu espero que o outro faça por mim. E o outro, sem dúvida, também tem a mesma expectativa a meu respeito. Valores são universais. Ninguém consegue escapar deles vivendo em sociedade. O estudo e a prática dos valores nos chegam como um presente nestes tempos de incerteza e dificuldades em tantos aspectos de nossas vidas. Vem para nos colocar em contato com os valores universais que devem dirigir nossos pensamentos e ações.

No décimo-terceiro capítulo do Bhagavad Gita existe alguns versos que lidam com um conjunto de valores denominados jñanam, que significa conhecimento em sânscrito. Neste sentido, “representa as diversas qualidades da mente na presença das quais, em medida relativa, o conhecimento do Ser pode ocorrer. E quando a ausência dessas qualidades é significativa, o autoconhecimento não ocorre, ainda que o professor seja qualificado e o conhecimento autêntico” (Dayananda, 2001). Acredito que esta linha de raciocínio pode ser expandida para o conhecimento do ambiente e da nossa relação com o mesmo. Precisamos nos questionar quais são os valores relativos ao ambiente, e a partir disso tentar resgatar o que seria mais adequado para o momento atual.

Vale a pena ressaltar que, “as palavras podem levar ao conhecimento direto ou indireto, dependendo do objeto envolvido. Se o objeto está fora da minha área de experiência, as palavras apenas podem gerar conhecimento indireto. Se o objeto está dentro da minha área de experiência, as palavras levam ao conhecimento direto” (Dayananda, 2001). Por isso, reforço a idéia de que para tratar de questões ambientais onde estão envolvidos diferentes elementos, como por exemplo, o Ser humano e o Ambiente, com o intuito de aproximá-los em uma verdadeira sustentabilidade, há a necessidade de uma reaproximação do indivíduo com a natureza. Com a finalidade de gerar conhecimento sobre a mesma e, conseqüentemente, uma consciência conservacionista.

De acordo com Dayananda (2001), “a mente é o lugar onde o conhecimento acontece”. Por isso, ela deve estar preparada para que isso ocorra. De acordo com o Gita, esses valores (jñanam) podem ser definidos como um estado da mente que reflete certos valores universais e atitudes éticas. Em outras palavras, a descoberta e a assimilação dos valores por si só constituem a preparação da mente, tudo o mais é secundário. Por isso, o Gita eleva os valores apropriados à categoria de conhecimento, denominando-os jñanam, que em sânscrito significa conhecimento. Em resumo, podemos dizer que a presença na mente e que a prática diária desses valores universais constituem o primeiro passo para que haja um conhecimento do ambiente e, posteriormente, respeito pelo mesmo.

Acontece alguma coisa a mais quando eu ignoro os padrões éticos gerais?

Sim, acontece. Crio a divisão entre o conhecedor e o agente em mim mesmo. Por exemplo, quando minto torno-me alguém que fala: falar é uma ação, então, como alguém que fala, sou um ator, um agente. Ao mesmo tempo, sei o que estou falando. Estou consciente de que estou falando alguma coisa contraditória à verdade. Portanto eu, o conhecedor, estou numa posição e eu, o agente, estou noutra posição. Pela minha mentira crio uma separação, uma divisão entre o conhecedor – eu – e o agente – eu (Dayananda, 2001).

Quando minto, crio uma divisão em mim mesmo, o conhecedor sendo um e o agente, outro – não estou integrado. Estou dividido entre um conhecedor “ideal” que valoriza uma linha de ação e o agente “real” que faz outra coisa. Eu criei um conflito do tipo o médico e o monstro dentro de mim. Convivendo com isso não se consegue nada na vida. É impossível! Mesmo nas menores coisas, a divisão conhecedor/agente faz mal. E, consequentemente, quando estou “dividido” não consigo apreciar nada por completo (Dayananda, 2001).

A minha qualidade de vida sofre todas as vezes que me torno “dividido”. Para apreciar a beleza da vida, para realmente estar disponível para apreciar seus confortos, preciso estar “inteiro”. Quando meus valores universais são apenas meios-valores, eles terão sempre o potencial de destruir minha “inteireza”, produzindo uma “divisão” em mim, quando cedem para algum valor situacional imediato (Dayananda, 2001).

Valores impostos ou obrigatórios tornam-se valores pessoais bem assimilados apenas quando percebo claramente seu valor para mim e assimilo estes valores em termos de conhecimento (Dayananda, 2001). Para a pessoa com valores éticos assimilados, a vida torna-se muito mais simples. Nenhum conflito obscurece sua mente (Dayananda, 2001). Por isso, não conseguiremos impor a conservação e a importância da natureza através de puro convencimento, e nem as catástrofes darão conta disso. É preciso que o valor pela natureza e, consequentemente o respeito, seja um valor assimilado e praticado diariamente pelos indivíduos da sociedade.

Os vinte valores da Filosofia Hindu

Irei listar os valores encontrados nas escrituras hindus acrescentando o nome em sânscrito, pois os mesmos possuem muitos significados. O sânscrito é uma das línguas mais antigas da humanidade e é de uma riqueza sem igual. As palavras possuem múltiplos significados e interpretações, por isso resolvi manter o nome original para aqueles que optarem por ir mais a fundo. (Para maiores detalhes, ver Dayananda, 2001 & os “Yoga Sutras” de Patañjali. Para este último, não há uma data precisa, mas é facilmente encontrado nos dias de hoje).

1-Ausência de vaidade: amanitvam;

2-Ausência de pretensão: adambhitvam;

3-Não-violência: ahimsa;

4-Adaptabilidade: kshantih;

5-Retidão: arjavam;

6-Dedicação ao mestre: acaryopasanam;

7-Limpeza: shaucam;

8-Persistência: sthairyam;

9-Comando sobre a mente: atmavinigrahah;

10-Desapego aos objetos dos sentidos: indriyartheshu vairagyam;

11-Ausência de egoísmo: anahankara;

12-Reflexão sobre a limitação do nascimento, morte, velhice, doença e dor: janma-mrtyu-jara-vyadhi-duhkha-dosha-anudarshanam;

13-Ausência de posse: asaktih;

14-Ausência de apego ao filho, mulher e lar: anabhishvangah putra-dara-grhadishu;

15-Constante neutralidade diante do desejável e indesejável: nityam samacittatvam ishta-anishta-upapattishu;

16-Firme devoção ao Senhor com a visão de não-separação: mayi ananyayogena bhaktih avyabhicarini;

17-Recolhimento a lugar tranquilo: viviktadeshasevitvam;

18-Ausência da necessidade da companhia das pessoas: aratih jana-samsadi;

19-Constante vivência do autoconhecimento: adhyatma-jñana-nityatvam;

20-Apreciação do objetivo do conhecimento da Verdade: tattva-jñana-artha-darshanam.

Dentre estes valores milenares universais, destaco: não-violência, adaptabilidade, persistência, comando sobre a mente, desapego aos objetos dos sentidos, ausência de egoísmo, recolhimento a lugar tranquilo e constante vivência do autoconhecimento, como os oito principais valores para serem assimilados no momento sócio-cultural atual. A observação e assimilação destes na realidade dos indivíduos são de fundamental importância e, indo mais além, cruciais para a recuperação da qualidade ambiental e de vida da humanidade.

Esta discussão não termina por aqui, ao contrário, está longe de se encerrar. Gostaria apenas de contribuir para que outros reflitam sobre essa mesma discussão.

Nithyanandam (Viva em Eterno Êxtase)!!!

 

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