- Ano II - nº 6(18) - Junho de 2008.                                                                     Direção: Osiris Costeira

YOGA - Sri Ananda Deha.

Jesus Cristo e Yoga.

“O Sermão da Montanha” segundo a Filosofia Hindu (Vedanta).

Namastê a todos os leitores!!!

Neste e no próximo artigo, trarei uma linda aproximação entre a filosofia trazida pelo Cristo, Jesus de Nazaré, e o Vedanta. Vedanta é o conjunto de ensinamentos que se encontram no final dos “Vedas”. Veda = “Vedas” e anta = final. Os “Vedas” são as escrituras hindus mais antigas que se tem notícia, é a base de todas as visões de mundo do que é chamado hoje de “Hinduísmo”.

“Sede, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus”.

Com esta frase, dá-nos Jesus o tema central do Sermão da Montanha que, segundo Swami Prabhavananda (1993), representa a essência do Evangelho de Cristo. Todo o sentido da vida humana resume-se nisso. E o mesmo tema acha-se no cerne de toda religião: Procura a perfeição! Tem consciência de Deus! E de todo o processo terapêutico, quando levamos em consideração que “perfeição”, aqui nesse caso, é equilíbrio energético antes de qualquer coisa.

Segundo Swami Prabhavananda (1993), “temos idéia do que possa ser a perfeição quando se trata de objetos materiais ou de metas intelectuais ou morais, embora os padrões individuais possam variar”. Mas, o que se entende por perfeição divina? De acordo com o mesmo autor citado, “uma vez que nossa mente se circunscreve num mundo de relatividade – dentro do tempo, do espaço e da causalidade – não temos condição de saber o que seja esta perfeição, porque ela é absoluta. Temos apenas a vaga idéia de que ela se refere a um estado de plenitude, de paz permanente e de realização”.

“Todo ser humano deseja encontrar a realização e a perfeição – em suas relações com outros seres humanos, em seu trabalho, em cada segmento da vida. Todavia, ao atingir os objetivos que o mundo tem a oferecer, não se sente ainda satisfeito. Pode estar rodeado por uma boa família e por amigos leais, pode gozar de riqueza e de boa saúde, de beleza e de fama – e, não obstante, ser perseguido por uma sensação de carência e de frustração. Naturalmente, é verdade inconteste que nossos desejos podem ser aplacados temporariamente neste mundo. Podemos gozar de alguns prazeres e sucessos. Mas, esquecemo-nos sempre de que eles são passageiros. Se aceitamos os prazeres e o sucesso, devemos estar prontos a aceitar também a dor e o fracasso”.

“Kapila, filósofo da Índia antiga, expressou de forma negativa a perfeição, como “a cessação completa da desolação”. Os sábios védicos procuraram exprimi-la positivamente, como SAT, a vida imortal; CHIT, o conhecimento infinito, e ANANDA, o amor e o êxtase eternos. Por detrás de cada esforço humano existe o desejo (por inconsciente e mal-orientado que possa ser) de encontrar Sat-Chit-Ananda – em outras palavras, a realidade suprema, Deus. Mas, desde que a maioria de nós não tem consciência de que a finalidade real da vida é encontrar Deus, continuamos a repetir as mesmas alegrias e tristezas indefinidamente. Gastamos nossa energia vital em realizações efêmeras, buscando recompensa infinita no que é finito. Somente após passarmos por muitas experiências de prazeres e de dor, ocorre-nos o discernimento espiritual. Começamos então a ver que nada neste mundo pode dar-nos satisfação duradoura. Aí entendemos que o desejo de felicidade permanente, de perfeição, só pode ser satisfeito na verdade eterna de Deus”.

Neste momento pode surgir uma pergunta: Mas onde encontrar a perfeição? Onde está Deus? De acordo com o Vedanta e o Swami Prabhavananda, “existe uma Base, Brahman (Deus para os hindus), subjacente ao universo de nomes e formas. Ele é onipresente: portanto, existe dentro de cada criatura e de cada objeto do universo, bem como além deles. Considerado em seu aspecto imanente, Brahman se chama Atman, o Eu interior; trata-se, porém, apenas de um termo conveniente, que não implica nenhuma diferença entre os dois – Atman e Brahman são um só”. Quando a alma estiver purificada através dos exercícios espirituais e de processos terapêuticos, e estiver apta a voltar-se para o interior de si mesma, o indivíduo descobre que o seu verdadeiro ser é Atman-Brahman. Revelar este ser verdadeiro ou esta divindade, que jaz oculta dentro do eu, é tornar-se perfeito, ou seja, energeticamente equilibrado e conseqüentemente com saúde integral.

Prabhavananda traz em seu comentário, que o próprio Cristo ensinou-nos a buscar o Deus interior. “No Evangelho segundo São Lucas, lemos: “O reino de Deus não tem aparência ostensiva; nem se poderá dizer: ei-lo aqui ou ei-lo ali! Porque o reino de Deus está dentro de vós.” Esta afirmação às vezes tem sido interpretada para significar que Cristo viveu entre seus discípulos neste mundo. Mas, se não aceitamos a afirmação de Cristo como referência à divindade dentro do homem, como haveremos de entender sua prece ao Pai: “Eu neles, e tu em mim, para que possam tornar-se perfeitos na unidade...” Ou o lembrete do apóstolo Paulo aos Coríntios: “Ignorais acaso que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?“

Outra pergunta pode aparecer: O que nos impede de perceber esta verdade de que Deus está sempre presente dentro de nós? De acordo com o autor supracitado, “é a nossa ignorância – a identificação falsa de nossa natureza real, que é Espírito, com o corpo, a mente, os sentidos e a inteligência. “E a luz brilhou nas trevas, e as trevas não a compreenderam”. A luz de Deus brilha, mas o véu de nossa ignorância esconde essa luz. Esta ignorância é uma experiência direta e imediata. Só pode ser removida por outra experiência direta e imediata – a realização de Deus. A diferença entre a ignorância e a realização de Deus, segundo Buda, é como a que existe entre o sono e o despertar”.

De acordo com Prabhavananda, em nossa ignorância, é difícil acreditar que Deus pode manifestar-se. De fato, muitos resistem a esta idéia. “No entanto, em todas as épocas, houveram grandes almas que viram a Deus, falaram com ele e tiveram experiência da união com ele. Mestres como Jesus, Buda e Sri Ramakrishna não apenas manifestaram Deus, como ainda insistiram que todos devem fazê-lo. Um vidente védico afirmou: “Conheci aquele Grande Ser de luz fulgurante, além de toda a treva. Tu também, conhecendo esta verdade, superarás a morte.” E Jesus disse: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. A experiência dessa verdade é possível através da transformação ou, nas palavras de Jesus, do renascimento espiritual: “A menos que uma pessoa renasça, não poderá ver o reino de Deus.” Comentando esta passagem, o místico alemão Ângelus Silesius disse: “Cristo pode nascer milhares de vezes em Belém, mas se não renascer dentro de teu próprio coração, permanecerás eternamente só.”

Podemos perguntar: O que significa ter Cristo renascido em nossos corações? “Falam-nos os Upanishads (escrituras que se encontram no final dos Vedas) que em geral o homem vive dentro de três estados de consciência: acordado, sonhando e dormindo sem sonhar. Nesses três estados é impossível ver Deus. Mas, além desses três, há um estado, chamado o Quarto, que é conhecido dos mestres – estado este que transcende o tempo, o espaço e a causalidade. É o reino de Deus de que fala Cristo. O que se experimenta neste Quarto estado não é contrariado em tempo algum por nenhuma outra experiência – ao contrário das fantasias do estado de sonho, que são anuladas quando acordamos. Embora o Quarto estado transcenda os sentidos e a mente, não vai de encontro à razão. Quando ele ilumina o coração, acontece uma transformação permanente de caráter. Renascemos em espírito e tornamo-nos perfeitos. Nesse estado transcendental, desaparece toda consciência do mundo e de sua multiplicidade. Os hindus chamam a este estado de Samadhi; os budistas chamam-no de Nirvana e os cristãos dão-lhe o nome de união mística ou união com Deus.”

Poucas pessoas, porém, entram neste reino de Deus, porque poucos lutam para encontrá-lo. Existem hoje milhões de cristãos que freqüentam com regularidade as igrejas, e milhões de hindus e budistas que fazem suas adorações em templos e pagodes. Mas, desses, poucos buscam a perfeição em Deus. Nas palavras de Prabhavananda, “a maioria das pessoas satisfaz-se em viver uma vida mais ou menos ética aqui na Terra, na esperança de serem recompensadas na vida do além pelas boas ações que possam ter praticado. O ideal de perfeição de Cristo, em geral, é esquecido ou mal compreendido. É verdade que muitos lêem o Sermão da Montanha, poucos, porém, procuram viver seus ensinamentos. Muitos questionam se é possível ou não encontrar Deus, ou se a perfeição pode ou não ser atingida, ou o que o Cristo quis dar a entender com conhecer a verdade ou ver a Deus. Mas, isto eu garanto – quando Cristo falou a seus discípulos, ele queria dizer literalmente que Deus podia ser visto na presente existência deles. E os discípulos ansiavam justamente por essa verdade: conhecer a Deus, serem perfeitos como é o Pai nos Céus.”

Sri Ramakrishna costumava dizer a seus discípulos: “Vocês vieram para o pomar de mangas. De que adianta contar as folhas nas árvores? Comam as mangas e satisfaçam a fome!” De igual modo, Cristo ensinou a seus discípulos como conhecer Deus, como percebê-Lo enquanto se vive neste mundo. Ele não afirmou que a perfeição divina só pode ser alcançada depois da morte do corpo.

“Muitas religiões, muitos caminhos para alcançar um único e mesmo objetivo” (Sri Ramakrishna)

Referência bibliográfica:

Swami Prabhavananda, 1993. O Sermão da Montanha segundo o Vedanta. Tradução de Cláudio Giordano, Editora Pensamento, SP. 133 p. Este e o próximo artigo foram baseados no IV capítulo do livro supracitado: IV. Sede, pois, Perfeitos.

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